Notas sobre tempos e espaços

Boleiros

Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

22 de outubro de 2008 | 00h00

Ser muito bom no que se faz não é nunca errar. Luxemburgo errou na escalação para o clássico ao não usar um primeiro volante, Pierre, o rei dos desarmes; isso para mim era claro antes mesmo de Léo Lima cometer as duas falhas nos gols do São Paulo. Depois da expulsão de Diego Souza, ele acertadamente tirou um zagueiro, Maurício, para a entrada de um meia, Evandro. Mas o time ficou com dois zagueiros - um deles, Roque Jr., sem preparo físico para correr atrás de Dagoberto ou Hernanes. A entrada de Pierre era ainda mais necessária, mas só aconteceu no segundo tempo. Até ali o Palmeiras ficou exposto demais aos contra-ataques, tanto que foi para o intervalo perdendo de 2 a 0.***O campeonato está muito disputado, o clássico foi emocionante, etc. Os clichês da hora têm seu sentido. Mas o valor da técnica nunca pode ser subestimado: o pouco que apareceu fez muita diferença. Ninguém se deu conta do que Dagoberto fez no segundo gol são-paulino: recebeu a bola no meio, mas a conduziu para a esquerda onde havia mais espaço e ele ficou no mano-a-mano com Gustavo; então pôde ajeitar a bola de novo para o meio e finalizar com a direita no canto de Marcos. Outro lance de qualidade que mudou a narrativa, para não falar das defesas de vôlei de Rogério Ceni, foi o de Denílson no primeiro gol palmeirense. Quando dominou a bola, havia um jogador a mais do São Paulo. A ousadia individual, quando bem canalizada, dribla a prancheta dos técnicos. Que o diga Alex, do Internacional, autor de uma assistência e um gol de estirpe contra o Atlético Paranaense. O talento cria o espaço e acha o tempo.***Os comentaristas de arbitragem, essa espécie autóctone do Brasil, dizem que Salvio Spínola fez bem ao expulsar Diego Souza e Borges para evitar que o jogo esquentasse. O jogo continuou quente e teve nada menos que 45 faltas... Mas nunca saberemos como ele seria com o melhor jogador do Palmeiras e o único homem de área do São Paulo. Um par de amarelos estaria de bom tamanho.***É verdade que o jogo com dez de cada lado aumentou os espaços e fez subir um pouco a estatística de dribles e finalizações. Mas falta de espaço não é desculpa. Basta ver o que a seleção de futsal de Falcão e companhia fez na Copa do Mundo. Ninguém a merecia mais do que essa geração, mas antes foi preciso que ela entendesse que malabarismo não ganha jogo a não ser em circunstâncias excepcionais. Sem dominar a prosa da troca coletiva, de nada servem os instantes poéticos. Unir regularidade e criatividade é tudo.***Por que Falcão não deu certo no campo? Porque ele pegava a bola e procurava algum companheiro num raio de cinco metros; muitas vezes não encontrava. Futebol de campo tem geometria mais complexa.***Não vi ninguém criticando Robinho por seu comportamento no jogo da seleção contra a Colômbia, jogo que comprovou que o time de Dunga só vai bem com quem dá espaços. Robinho simulou contusão para deixar o gramado no momento em que a torcida - com toda a razão - mais vaiava a equipe. Eis o que faltou para que ele se tornasse um supercraque: não se omitir na dificuldade. Certas características psicológicas fazem mais falta do que recursos técnicos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.