Nilton Fukuda
Caio Costa é campeão brasileiro sub-16 e uma das promessas da nova geração Nilton Fukuda

Caio Costa é campeão brasileiro sub-16 e uma das promessas da nova geração Nilton Fukuda

Nova geração de surfistas luta para superar o amadorismo

Maior desafio é conseguir patrocinadores para bancar as viagens para as competições

Gonçalo Junior , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Caio Costa é campeão brasileiro sub-16 e uma das promessas da nova geração Nilton Fukuda

Inspirada pelos últimos títulos mundiais do Brasil, uma nova geração de surfistas tenta dar um aéreo, aquele voo sobre a onda, passando do amadorismo à carreira profissional. A manobra esbarra na falta de patrocínio para os jovens atletas e nas dificuldades estruturais das categorias de base que caracterizam não só o surfe, mas todo o esporte amador no País.

Caio Costa é campeão brasileiro sub-16. Ele é um dos alunos do Instituto Gabriel Medina e recebe aulas de preparação física, natação e inglês gratuitamente. Em abril, o menino de Maresias vai para a Austrália participar de um torneio mundial bancado pela Rip Curl, marca de roupas esportivas. É uma grande promessa do País. Ao longo da semana, ele estava preocupado com uma reunião para renovar um de seus patrocínios. O alvo era o restaurante Savannah, de Santos. Conseguiu.

Para participar das principais competições da temporada, ele precisa levantar entre R$ 20 mil e R$ 60 mil, de acordo com as competições que decidir participar. Os surfistas amadores não têm prêmios em dinheiro. “As minhas dificuldades são as mesmas dos outros: conseguir verba para competir”, diz o aluno do 1º ano do Ensino Médio.

Quando a conta das inscrições, hospedagens e passagens aéreas não fecha, Caio recorre ao pai, Paulo Cesar, ex-atleta, instrutor de surfe e que também realiza serviços diversos de manutenção e jardinagem. Caio mora na cara do gol da praia. Ele vai a pé, descalço mesmo, e demora só quatro minutos para chegar ao seu “centro de treinamento”.

A casa é simples, com paredes com os blocos aparentes e um portão de madeira. No quarto, ele guarda suas 18 pranchas, não desgruda delas nem quando está em terra firme. Uma delas virou o porta-retrato com imagens que contam um pouco de sua história. Na entrada da casa, a palavra “surf” está escrita em letra vermelha com destaque. “Ainda não dá para viver só do surf, mas estamos batalhando”, revela o pai.

Em geral, os surfistas começam a carreira em eventos não oficiais de bairro, promovidos por associações locais. O próximo passo são os circuitos municipais, realizados pela maioria das cidades litorâneas. Em São Paulo, cada cidade participa do circuito estadual, que contempla as categorias sub-10 até sub-18. Sob a supervisão da Federação Paulista de Surfe, os destaques do estado vão para o Circuito Brasileiro Amador, organizado pela Confederação Brasileira de Surfe.

Os títulos mundiais que o Brasil conquistou – foram quatro desde 2014 com Gabriel Medina (2), Mineirinho e Ítalo Ferreira – são o pano de fundo do início da carreira dos jovens surfistas. "Atualmente, surfistas como Italo Ferreira e Gabriel Medina, inspiram milhares de jovens no Brasil. Mas é importante reconhecer que os resultados que estamos alcançando hoje em dia se deve ao esforço e à determinação das gerações anteriores, desde os anos 70, que abriram o caminho para as gerações seguintes", opina Adalvo Argolo, presidente da Confederação Brasileira de Surfe. 

A entidade estima que o Brasil tenha hoje cerca de 4 milhões de praticantes de surfe. A realidade dos torneios municipais está distante do glamour dos torneios da WSL, entidade organizadora do Circuito Mundial de Surfe. Em alguns torneios, o número de etapas é mínimo ao longo da temporada. Como são organizados pelas prefeituras, muitas competições podem ser utilizadas por políticos que querem surfar na mesma onda de popularidade dos esportistas.

Também existem problemas de organização, com avanços e retrocessos. Embora tenha patrocinado a ida de 12 atletas brasileiros ao ISA Games (International Surfing Association), evento internacional no final do ano passado, a Confederação Brasileira de Surfe simplesmente não distribuiu troféus para os vencedores do título brasileiro em nenhuma categoria. Nas prateleiras que forram as paredes da casa de Caio, não existe o troféu mais importante de sua carreira até agora.

O atleta passa de amador ou profissional por escolha própria. O problema é arcar com os custos na carreira com filiação e inscrições para os torneios maiores. Competições nacionais têm custos da ordem de R$ 400. Para os torneios internacionais, as cifras giram em torno de R$ 5 mil.

Aos 16 anos, Isabela Saldanha planeja para 2020 a passagem para o profissional. Nona colocada no WQS 1000 Nelson Mandela Pro WSL, circuito de divisão de acesso para a elite mundial, ela pretende parar de competir em campeonatos amadores. Seus focos são o circuito Pro Jr Sul-americano WSL e o circuito de divisão de acesso para a elite mundial (WQS). Todos os anos, ela viaja para treinar e competir no Havaí. Neste ano, ela está em Sunset Beach e vai competir a partir do dia 18.

“Todo atleta tem seu tempo, alguns tornam-se profissionais mais cedo, outros mais tarde, alguns nunca se tornam! Tudo depende dele mesmo. Para poder viver da competição, tornar-se profissional é essencial, uma vez que premiações em dinheiro são apenas entregues em campeonatos profissionais”, explica Isabela.

Quatro anos mais novo que Caio e Isabela, Guilherme Fernandes é outro destaque da nova geração, mas com menos tempo de estrada. Ele se tornou bicampeão municipal nas categorias sub 12 e 14 em Ubatuba e vice-campeão paulista sub-12. “Meus principais sonhos são entrar para a elite do surfe mundial e ser campeão do mundo”, diz o pré-adolescente.

Ele está seguindo o caminho tradicional, do bairro para o País, levando adiante o sonho do pai, Claudemir Fernandes, surfista amador e que se tornou um dos principais incentivadores da carreira do filho. “O plano B é estudar e fazer uma faculdade. Ele está levando o surfe e o estudo juntos. A gente nunca sabe o que vai acontecer, mas ele só pensa no surfe”, diz o pai que se define como autônomo e que “faz um pouco de tudo”.

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Italo Ferreira conquistou o seu primeiro título mundial ao brilhar no Billabong Pipe Masters, no Hav Ed Sloane| WSL

Campeão mundial de surfe, Ítalo coloca Baía Formosa no mapa

Potiguar, surfista alcança a glória na modalidade quatro anos após ter chegado à divisão de elite da World Surf League

Rodrigo Ferreira, Especial para o Estado , Baía Formosa-RN

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Italo Ferreira conquistou o seu primeiro título mundial ao brilhar no Billabong Pipe Masters, no Hav Ed Sloane| WSL

A madrugada da última sexta-feira, dia 20, foi de muitos festejos para a população da pacata cidade de Baía Formosa, no interior do Rio Grande do Norte. O município, distante 96 km da capital Natal, pôde comemorar a maior de suas glórias no esporte nacional. Isso porque o surfista Italo Ferreira, de 25 anos, nascido e criado na região, venceu o Circuito Mundial Masculino de Surfe (WCT, na sigla em inglês) pela primeira vez após ganhar do compatriota Gabriel Medina em Pipeline, na última e decisiva etapa da disputa. Italo é o filho mais famoso da cidade.

O título do garoto potiguar na principal categoria do surfe mundial não só foi o primeiro do Rio Grande do Norte na história como também o primeiro da região Nordeste do Brasil. Antes dele, apenas Gabriel Medina, em 2014 e 2018, e Adriano de Souza, o Mineirinho, em 2015, conseguiram trazer o troféu para o País, ambos representantes de São Paulo. Das últimas seis edições da WCT, quatro títulos vieram para o Brasil. Um deles de Italo.

Mas, afinal, quem é Italo Ferreira? Por trás dos cabelos descoloridos e da barba por fazer do atual campeão mundial existe uma grande história de vida. Como costuma ocorrer com a maioria dos atletas profissionais brasileiros, de diversas modalidades, ele começou de baixo, sem contar sequer com o equipamento essencial para surfar, ou seja, uma prancha. Isso, no entanto, nunca foi empecilho para que pudesse pegar suas primeiras ondas nos mar do Rio Grande do Norte.

Filho de Luiz Ferreira de Souza e Katiana Batista da Costa, Italo encontrou, aos 8 anos, em uma das ferramentas de trabalho do pai, o objeto que lhe colocaria de uma vez por todas no caminho do surfe. Vendedor de peixes, Luizinho, como é popularmente conhecido o pai do atleta, saía todos os dias bem cedo para a praia da Pipa, em Tibau do Sul, a cerca de 61 km de Baía Formosa. Com ele, levava uma caixa de isopor lotada de peixes e também a sua companhia fiel para a jornada de trabalho: o pequeno Italo.

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Saíamos todos os dias em direção à Pipa para vender os peixes. Era a forma que tinha de sustentar a nossa família. Como não tinha prancha, tirava a tampa do meu isopor e começava a pegar ondas. Foi onde surgiu todo esse interesse pelo surfe
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Luiz Ferreira, pai do campeão mundial

De posse da tampa do isopor, Italo fazia as manobras que lhe cabia e eram possíveis. Como todo iniciante, buscava primeiro o equilíbrio sobre o objeto para depois partir para etapas mais avançadas. Esse processo durou quase um ano e rendeu ao pai várias tampas quebradas, o que, segundo ele, não era capaz de deixá-lo chateado. "Ele só queria se divertir, não dava para reclamar. Era a única coisa que dava para ele fazer naquele momento e eu reconhecia isso", justifica.

Com o isopor, Italo treinou tanto que, em dado momento, o objeto não mais lhe serviu. Estava pequeno e quase que inutilizável para seguir aperfeiçoando suas técnicas. Sem dinheiro para comprar uma prancha de verdade, a família do futuro campeão contou com a ajuda de terceiros, que doaram uma prancha velha e sem bico ao menino, capaz de protagonizar um sorriso largo no rosto dele. "Ele só reclamava que a prancha era pesada, mas era o que tinha, então ia para o mar assim mesmo", rememora Luizinho, nostálgico.

Cerca de três anos depois, aos 11, Italo ganhou sua primeira prancha nova. E foi da família. Até hoje, o pai lembra. "Gastei R$ 120, uma fortuna na época, mas foi o melhor presente que poderia ter dado a ele". Com um equipamento que lhe oferecia a qualidade mínima necessária para praticar o surfe, o garoto passou a aperfeiçoar manobras e, de uma vez por todas, entrou para a modalidade de corpo e alma, disposto a fazer dela sua profissão. Veja em imagens a trajetória de Italo Ferreira no Circuito Mundial de Surfe deste ano.

'Coisa de vagabundo'

Assim como diversas crianças e adolescentes que decidiam enveredar pelos caminhos do surfe no Brasil, Italo sofreu com o preconceito enraizado em parte da população. Alheio aos estudos, ele gostava de ficar no mar o dia inteiro e isso, inevitavelmente, gerava comentários tendenciosos de algumas pessoas. O pai lembra com tristeza do que ouvia. "Infelizmente, a gente precisou ouvir muita coisa pelo fato de ele sempre ter se dedicado ao surfe. Devo admitir que Italo não era muito fã dos estudos, tanto que só terminou o primeiro grau (ensino fundamental)".

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Algumas pessoas o viam se dedicando somente ao esporte e faziam comentários maldosos, dizendo que o surfe era coisa de vagabundo e que ele iria se perder nesse meio. Ficávamos tristes com isso, mas procurávamos não nos abalar
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Luiz Ferreira, pai de Italo

Um dos comentários mais recorrentes que eram dirigidos aos familiares do futuro campeão mundial se baseava no possível uso de drogas. "A gente ouvia que ele iria se envolver com coisas erradas, mas hoje me orgulho muito de dizer que meu filho não gosta nem de beber, muito menos de fumar. Nunca fumou na vida. Sempre foi um rapaz centrado, que sabia que para ser surfista profissional precisava não se envolver em coisas erradas, e assim tem sido até hoje", orgulha-se o pai. 

Além da convivência quase diária com os comentários maldosos, Italo e sua família também sentiram de perto o desprezo do poder público com os atletas amadores. Por diversas vezes precisaram arrecadar recursos com os próprios parentes para que ele pudesse ter melhores condições de treinamento. Em nenhum momento os governos municipal e estadual ofereceram apoio financeiro ao atleta, mesmo sabendo da origem humilde de sua família.

"Para ser sincero, a gente nem chegou a procurar. Já sabíamos das dificuldades que era para conseguir. Então, quando ele precisava de alguma coisa, a gente juntava a família e tentava arrecadar. Cada um dava R$ 5, R$ 10 e assim fazíamos para comprar o que era necessário. Mesmo quando ele começou a vencer torneios, o poder público jamais chegou para dar qualquer incentivo. É uma realidade triste do Brasil para os atletas", lamenta. Itao cresceu como pôde e hoje se orgulha de sua família e do lugar que veio, para onde sempre volta quando não está treinando e competindo.

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Ótimo momento dos surfistas nacionais reforça apelido de ‘Brazilian Storm’

Ao garantir o quarto título mundial nos últimos seis anos, Brasil se consolida como uma das potências da modalidade

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 04h32

O Brasil garantiu com Italo Ferreira mais um título mundial de surfe durante a disputa do Billabong Pipe Masters, no Havaí. Esta é a quarta vez que o Brasil tem um campeão mundial nos últimos seis anos. Em 2014, Gabriel Medina ganhou o troféu e repetiu a dose no ano passado. Quem também venceu foi Adriano de Souza, o Mineirinho, que conquistou a taça em 2015. Já o havaiano John John Florence brilhou e foi bicampeão em 2016 e 2017.

O ótimo momento reforça o apelido de “Brazilian Storm”, a tempestade brasileira no surfe, dado a essa geração de atletas talentosos e ousadas que estão elevando o nível do Circuito Mundial da WSL (Liga Mundial de Surfe). O bom momento dos competidores nacionais começou a chamar a atenção de todos há alguns anos e a cada temporada isso fica mais nítido.

Só para se ter uma ideia, dos quatro mais bem colocados no ranking mundial, três são brasileiros: Italo Ferreira, Gabriel Medina e Filipe Toledo. No ranking da divisão de acesso, cinco surfistas nacionais ficaram no top-10: Jadson André, Yago Dora, Alex Ribeiro, Miguel Pupo e Deivid Silva. Já Lucas Vicente foi campeão mundial pró júnior, assim como Mateus Herdy no ano passado.

Ou seja, além de ter alguns dos melhores atletas do mundo na elite, o Brasil ainda vem forte na base, com uma geração para ficar no topo por muitos anos. Aliado a isso, a WSL abriu um novo escritório em São Paulo e tem no País seu principal mercado no mundo no momento.

Como modalidade, o surfe tem crescido no Brasil, seja na conquista de títulos, na formação de atletas e na atração de novas marcas – a empresa Havaianas acabou de se tornar patrocinadora global da WSL. A cereja no bola será a estreia do surfe no programa olímpico nos Jogos de Tóquio, em 2020. Ao que tudo indica, essa ‘tempestade’ não é passageira.

 

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