Luca Bettini / AFP
Luca Bettini / AFP

Nova regra acaba com tradição de longa data do ciclismo

Garrafas de água dos ciclistas são lembranças preciosas entre os fãs do esporte. Os atletas não estão felizes com a nova regra que proíbe jogá-las no meio da multidão

Juliet Macur, The New York Times

21 de abril de 2021 | 15h00

Alex Howes, um ciclista americano da equipe EF Education-Nippo, ouviu um som familiar dos fãs à beira de estrada na Volta ao País Basco de Ciclismo, em Itzulia, na Espanha, na semana passada.

"Bidon! Bidon!", eles gritavam, implorando para que ele jogasse a garrafa que segurava nas mãos. Bidon é um jargão do ciclismo e a palavra francesa para garrafa de água, e os fãs pedem por uma como lembrança de corrida, sem se importarem com a covid-19 e ou as consequências negativas para os atletas.

Pegar um bidon lançado por um ciclista é uma tradição do ciclismo; é a versão do esporte de receber uma bola rebatida em uma partida de beisebol. Mas, evidentemente, não é algo bem-visto aos olhos da União Internacional de Ciclismo (UCI), órgão regulador global do esporte. A organização instituiu novas regras que impedem que os atletas deixem lixo para trás em qualquer lugar, limitando o descarte apenas em áreas especificadas, mesmo que seja um bidon. O que, na prática, põe fim ao ritual espontâneo que existe há décadas de jogar e pegar os objetos.

As regras entraram em vigor em 1º de abril e, mais tarde, restou a Howes apenas se desculpar com os fãs. “Sinto muito, pessoal, mas não posso”, Howes se lembra de ter dito à multidão enquanto seus bolsos e sua camiseta estavam cheios de bidões usados. “Quero manter meu emprego aqui.”

Dois atletas já pagaram um preço alto por quebrar as novas regras. Michael Schär, da Suíça, e Letizia Borghesi, da Itália, arremessaram seus bidões fora das áreas designadas de lixo no Tour de Flandres poucos dias depois que as novas regras entraram em vigor. Schär jogou um bidon para um grupo de fãs. Ambos foram desclassificados da corrida.

“Por esse gesto inconsciente, eles realmente me fizeram sentir como um ‘criminoso’”, escreveu Letizia no Instagram, acrescentando: “Além disso, as garrafas não poluem porque são coletadas por crianças ou fãs que as colecionam. Acho que ver uma criança sorrir ao pegar uma garrafa na beira da estrada não tem preço”.

Chris Froome, quatro vezes campeão do Tour de France, chamou a proibição de "ridícula" em um post no Twitter que incluía um vídeo dele jogando um bidon para um torcedor durante a Volta à Catalunha, na Espanha, no final de março. Com um emoji revirando os olhos, ele mostrou sua desaprovação à mudança de regulamento que agora justificaria a desqualificação.

Thomas De Gendt, um ciclista belga, chamou a questão de “garrafagate” e disse que a regra precisava ser mudada. “Eu entendo que não podemos jogar garrafas na natureza”, escreveu ele no Twitter. “Mas dar uma garrafa para um fã que está pedindo é algo totalmente diferente.”

A UCI disse que as regras foram feitas para promover a segurança dos atletas e respeitar o meio ambiente, e que ciclistas, equipes e organizadores das corridas as adotaram em conjunto em fevereiro. Os atletas tiveram dois meses para se preparar, então a mudança não deveria ser surpresa, disse Louis Chenaille, porta-voz da UCI.

“Acreditamos firmemente que essas medidas, que em alguns casos exigem mudanças de atitudes, contribuirão para tornar o ciclismo o esporte do século 21”, disse ele por e-mail na semana passada.

Por gerações, muitos ciclistas foram, digamos, menos respeitosos com o meio ambiente. Jogavam embalagens de sanduíches sobre penhascos alpinos cobertos de neve. Atiravam bolsas de algodão, que guardavam seus lanches, em rios que antes eram intocados. Arremessavam bidões em fazendas, ao lado de vacas pastando e em campos de girassóis gigantescos. E parte desse lixo descuidado foi mostrado pela TV ao vivo.

Christian Prudhomme, diretor de corrida do Tour de France, disse na semana passada que recebeu inúmeras reclamações de pessoas que viram ciclistas jogando lixo na natureza. Então, em 2010, ele e a Amaury Sport Organization, que organiza o Tour e outras competições de ciclismo, decidiram criar três áreas de lixo exclusivas ao longo de cada etapa. No ano passado, eles aumentaram o número para seis, disse ele, e agora a UCI insiste que as corridas tenham áreas de coleta de lixo ao longo de suas rotas.

As equipes agora precisam descobrir onde colocar suas garrafas usadas, já que as mãos dos fãs que as pedem não são mais uma opção. E há muitos bidões envolvidos nessa história.

Atualmente, uma equipe poderia chegar a usar 100 por dia, de acordo com Paul Navin, que, como soigneur, é responsável pela massoterapia e outras tarefas vitais para a equipe de Howes. No Tour de France deste verão, seriam 100 bidões vezes 23 equipes, multiplicados pelos 21 dias de corrida. Chega-se a 48.300 bidões ao longo de uma corrida de mais ou menos 3200 quilômetros.

Essas garrafas agora precisam ser descartadas de maneiras específicas, que incluem dá-las a um soigneur da equipe ou jogá-las no carro de qualquer equipe. Navin explicou que agora esperava na beira da estrada com um saco de lixo para que sua equipe - e qualquer outra equipe - pudesse jogar fora seus bidões. Ele passa um tempo extra vasculhando a área em busca de qualquer objeto que possa ter ficado por lá, temendo ser multado por deixar lixo para trás.

O trabalho de Howes ficou mais difícil também. Como um ciclista-gregário (domestique), que é a abelha operária da equipe, ele teve o trabalho na semana passada de pegar garrafas de água cheias do carro da equipe e distribuí-las entre seus companheiros. Depois, teve que recolher as garrafas usadas e encontrar um local para despejá-las - sem quebrar as regras. Em uma ocasião, ele fez um desvio de 30 minutos para colocar os bidões no carro de um juiz da corrida.

“Enquanto isso, há mil pessoas na beira da estrada gritando: ‘Bidon! Bidon! 'E eu não posso dar a eles uma pequena lembrança da corrida que os deixaria tão felizes", disse ele. “É muito frustrante.”

A adoção das novas regras não tem sido nada fácil, disse Howes. Jogar bidões para um soigneur na beira da estrada tem sido um desafio para os ciclistas, afirmou, porque às vezes há até 50 deles quase simultaneamente tentando fazer isso enquanto passam em alta velocidade. E a precisão do lançamento não é uma habilidade característica dos ciclistas.

“Nenhum de nós praticava esportes com bola, então você tem um monte de ciclistas magricelos tentando jogar uma garrafa meio cheia passando por cima de um monte de ciclistas, e isso pode ser muito perigoso”, disse Howes. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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