Nova tecnologia, celular ''entrega'' juiz à torcida

Novidade, que permite acompanhar as partidas por telefone, possibilita que torcedores assistam a replays no estádio

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2010 | 00h00

  

 

 

Surpresa. Salinha discreta esconde aparato de ponta

      Na saída do gramado, no intervalo do clássico Alemanha x Inglaterra, quando o placar mostrava 2 a 1 para os alemães ? a Alemanha se classificou com goleada de 4 a 1 ?, o árbitro uruguaio Jorge Larrionda foi surpreendido ao receber sonora vaia que vinha das arquibancadas. Isso porque, alguns minutos antes, ele não percebeu que a bola chutada por Lampard tocou no travessão e quicou 33 centímetros dentro da meta de Neuer, naquele que seria o gol de empate dos ingleses.

O telão do estádio Free State, em Bloemfontein, seguia à risca orientação da Fifa e mostrava apenas a transmissão da partida em tempo real, sem repetições de lances. O que entregou o erro da arbitragem foram os aparelhos celulares. Muitos torcedores tinham dispositivos capazes de receber sinal de televisão. Ou seja, segundos após o lance, boa parte do estádio confirmou o erro no replay e se revoltou contra Larrionda e seus auxiliares.

Horas mais tarde, na vitória da Argentina em cima do México, outro lance polêmico comprometeu o trabalho do árbitro italiano Roberto Rosetti. Carlitos Tevez, em impedimento claro, abriu o placar na vitória por 3 a 1 da equipe de Diego Maradona, que se classificou para as quartas de final. Dessa vez, até o telão do estádio mostrou a lambança. Mais uma vez, aparelhos celulares foram utilizados pelos torcedores para assistir à repetição.

Encruzilhada. Os dois episódios mostraram um dilema vivido pela Fifa. Ao mesmo tempo que a entidade se mostra refratária ao uso de tecnologia no futebol, trabalha intensivamente para disponibilizar conteúdo para novas mídias. Entre elas, destacam-se as transmissões via telefones, as mesmas que entregaram os árbitros ontem.

Dentro do International Broadcast Center (IBC), o centro nervoso da geração e transmissão de imagens da Copa, é possível notar essa preocupação. Na porta, uma plaquinha tímida informa: "Mobile Content Production". E só. É um caixote sem charme e sem janelas perdido na imensidão dos 75 mil metros quadrados do local. Ali, ao lado do estádio Soccer City, estão aquarteladas as quase 300 redes de TV que cobrem a competição. Mas é dentro do tal caixote sem graça que a maior aposta tecnológica da Fifa para este e para os mundiais futuros acontece: a criação de conteúdo para celulares.

Pela primeira vez a entidade dá às plataformas móveis o mesmo tratamento dispensado à TV. Para a Copa da África, 30 companhias ? de operadoras de telefonia a emissoras de TV ? compraram os direitos para celular em 80 países. Esqueça, porém, os simplórios torpedos avisando dos gols marcados e os ringtones de vuvuzelas para baixar. A coisa ficou mais sofisticada. A ESPN, por exemplo, transmite todos os jogos em tempo real, via celular, nos Estados Unidos. O mesmo fazem empresas alemãs, japonesas e coreanas.

Nova onda. Antes da Copa, uma pesquisa da consultoria Nielsen relatava que 23% dos fãs americanos de futebol planejavam assistir às partidas em seus celulares. Quando a bola rolou, os números se mostraram impressionantes. "Nos primeiros dez dias da competição nosso portal móvel registrou 4,7 milhões de page views", contou ao Estado Jay Lee, diretor de conteúdo móvel da ESPN americana. "A média de tempo gasto por usuário na Central de Gols é de 9,5 minutos. E nos dois primeiros fins de semana, 6 milhões de vídeos foram vistos via dispositivos móveis."

Só que a ESPN, associada ao poderoso conglomerado Disney, produz a maior parte do seu conteúdo. Tem know how para isso. Operadoras de telefonia celular não têm. Aí entra o caixote da Produção de Conteúdo Móvel (MCP, a sigla em inglês) do IBC. Trata-se de uma pequena central televisiva, com ilhas de edição, narradores, editores e produtores. São 62 profissionais de várias partes do mundo que mal saem para ver a luz do sol. Passam de 10 a 12 horas por dia ali transformando as imagens geradas pela Fifa (na verdade pela empresa alemã HBS) em produtos diversos com formato apropriado para celulares. E eles precisam ser rápidos. "Quando sai um gol temos no máximo 2 minutos para que o lance esteja disponível para download", explica Tim Stott, consultor de novas mídias da HBS e responsável pela MCP.

A coisa toda começa na captação digital das imagens. Em cada um dos dez estádios da Copa existem 32 câmeras. Os lances "vistos" por elas seguem diretamente para o Fifa Max Server, o servidor-monstro capaz de armazenar 250 terabytes de dados (ou 3.500 horas de filmagens). Então, por computador, os profissionais da MCP acessam o servidor e separam as imagens mais interessantes para montar videoclipes de 15 segundos.

O curioso é que cada um desses clipes é narrado em 11 idiomas (incluindo português brasileiro), o que transforma uma saleta nos fundos da MCP numa Torre de Babel. Ali, instalados em cubículos de 2m x 2m, ficam os 11 narradores. Eles têm um monitor de TV, dois de computador, um laptop, fones de ouvido e um microfone à mão. Quando um lance separado pelo editor chega aos monitores dos narradores eles se põem a falar ao mesmo tempo. Quem engasga, tem tempo para repetir a narração só uma vez, porque em dois minutos o clipe estará no celular de alguém em alguma parte do mundo. "Até alguns dias atrás estava tranquilo, porque não saía gol nessa Copa", brincava, na última segunda-feira, o goiano Bruno Teixeira, encarregado das narrações em português brasileiro. "Agora ficou mais divertido."

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