Novato na galeria?

Se você der uma espiada na classificação do Brasileiro, perceberá um detalhe diferente e, de certa forma, relevante. Os quatro primeiros colocados, que se mantêm no topo independentemente dos resultados deste final de semana, são clubes acostumados a conquistar títulos - Vasco, São Paulo, Botafogo e Corinthians têm taças de todo tipo e qualidade. Mas seus treinadores, não. Nenhum dos quatro ostenta currículo notável, embora não sejam novatos. E há chance grande de um deles entrar, em dezembro, para a galeria não tão vasta de técnicos campeões da Série A nacional.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h03

Adenor Bacchi, o Tite, é o decano do quarteto, com 50 anos, e também o mais rodado. Começou em 1990, no Guarany de Garibaldi, e passou por Caxias, Grêmio, Inter, Al Ahin, Corinthians (em 2005 e com retorno no ano passado), Palmeiras e vários outros. "Andou por Ceca, Meca e Currais de Santarém", como diria o português sr. Domingos, dono da saudosa padaria Vila Flor, no Bom Retiro, e que adorava citar provérbios lusitanos, ora pois! Tite tem, de relevante, três títulos gaúchos, uma Sul-Americana (2008) e uma Copa do Brasil (2001). Modesto para duas décadas de estrada.

Ricardo Gomes, com 46 e em recuperação de derrame, vive a rotina dos bancos de reserva desde 1996, quando se aposentou no Paris Saint-Germain e virou técnico. Ganhou uma Copa da França (98), uma Copa do Nordeste e o Campeonato Baiano (Vitória, em 99). Sua maior façanha veio em 2011, com a Copa do Brasil levantada pelo Vasco. Ricardo dificilmente volta nesta temporada e cedeu o cargo, interinamente, para o sempre auxiliar Cristóvão Borges, 52.

Caio Júnior também tem 46 anos, treina times desde 2000 (Paraná Clube) e a copa mais bacana que ajudou a erguer foi o título do Catar, em 2010, com o Al Gharafa. Pegou o Botafogo com a temporada em andamento. Assim como o Adilson Batista, 43 anos , que desembarcou no São Paulo neste Brasileiro. O ex-zagueiro é "professor" desde 2001, quando começou no Mogi Mirim. Tem dois títulos mineiros com o Cruzeiro, um potiguar e um catarinense.

Todas vitórias dignas, não importa a dimensão delas. São marcas pessoais, e certamente legítimas as reações de euforia que cada um teve. Seria injusto e esnobe diminuí-las. Ao mesmo tempo, indicam lacunas no histórico profissional prontas para serem preenchidas.

Acredito que o título vá para um deles, embora a competição esteja tão enrolada que não se pode fechar os olhos nem para Fluminense, Flamengo e Santos, times bons, guiados por raposas velhas (Abel, Luxemburgo, Muricy) e que, no entanto, ontem sofreram. Mas os quatro candidatos neófitos terão de revelar jogo de cintura, criatividade, ousadia, esquema e equilíbrio suficientes para manter o prumo na arrancada para o título. E aí é que embatuca a dúvida.

Tite, Caio Júnior, Adilson e Ricardo (ou Cristóvão) são nomes conhecidos, estão em grandes clubes, porém não se destacaram - ainda - como estrategistas, não marcaram época por onde passaram, não inovaram. Ok, alguém pode lembrar que faz tempo que não surge algo diferente no futebol, e não vou discordar. Nem pretendo que algum deles anuncie novidade, na bola, como aquela dos cientistas que em Genebra descobriram uma partícula talvez mais rápida do que a luz. Seria demais!

Já me satisfaço com a busca por algo surpreendente, tão em falta no futebol. Tite e Ricardo Gomes me parecem mais conservadores; Caio e Adilson, mais irrequietos. Não há, dentre eles, nenhum gênio. Como também não existe uma equipe de fazer cair o queixo de torcedores e críticos. Com pequenas mudanças, são todas na base do seis ou meia dúzia. Eis o desafio: com ovos comuns, quem será o chef que conseguirá preparar a omelete mais saborosa? Tite, Caio, Adilson e Ricardo estão com a mão na massa. Tenho certeza de que o vencedor abrirá novo caminho na carreira e, com o tempo, também será mestre. De bola e não cuca.

Sufocos. Flu e Santos voltaram a emperrar. O campeão brasileiro foi apático, diante do Atlético-PR, e conseguiu empate por 1 a 1 em cima da horal, em pênalti cobrado por Fred. Tem 41 pontos. O Santos recebeu o Figueirense, na Vila, se deixou envolver e caiu por 3 a 2, com gol de pênalti no fim. Para nos 35 pontos. O Flamengo enfim renasceu, com 2 a 1 de virada sobre o América-MG, e foi a 41.

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