Novos astros e os ídolos de sempre

O Corinthians foi medíocre no empate com o Santo André e já há quem diga que o problema foi a falta de Ronaldo. Como se o Corinthians tivesse Ronaldo há tanto tempo e pudesse contar com ele em todos os jogos. Nessa partida chinfrim, de certa forma, o que havia de interessante jogava do outro lado: Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians, hoje envergando a camisa azul do Santo André. No jogo chato, os momentos dignos de nota surgiam quando Marcelinho botava o pé na bola e ela então tomava trajetórias inesperadas. Um escanteio ameaçador, uma falta cobrada com arte e malícia - era o que havia para ver. Em outro jogo, Santos x Mogi Mirim, eram pelo menos duas as atrações em campo - a estreia de Neymar como profissional e o reencontro de Giovanni com o time no qual viveu sua melhor fase. Um astro em fim de carreira; um jovem candidato a ídolo. Neymar fez seu primeiro gol no time de cima e comemorou à Pelé, socando o ar. Giovanni recebeu as homenagens merecidas da torcida do Santos e teve atuação discreta pelo Mogi. Mas, quando tocava na bola, era como Marcelinho. Via-se então um trato diferente com ela, amoroso, uma lucidez maior de movimentos. Em certo momento, Giovanni fez um lançamento de uns 40 metros, no pé do companheiro, que desperdiçou. Nessa hora, uma máquina do tempo pode ter passado por ali e levado o torcedor santista a uma tarde de 10 de dezembro de 1995, naquele mesmo Pacaembu, quando o então jovem Giovanni comandou o Santos num improvável 5 a 2 contra o Fluminense e levou o time para a final do Campeonato Brasileiro daquele ano. O que se passará na cabeça desses velhos craques em final de carreira, jogando por times menos expressivos e recebendo homenagem dos grandes clubes nos quais se consagraram? Não sei, ninguém sabe, mas só pode ser uma coisa boa, junto a certa melancolia. À certeza de que o tempo passou e a época de glória não volta mais, vem a compensação de que não foram esquecidos e continuam amados pelas torcidas. Marcelinho, hoje no Santo André, é para sempre um jogador corintiano. Giovanni, camisa 10 do candidato ao rebaixamento Mogi Mirim, será pela eternidade aquele guerreiro com cabeça pintada de vermelho que fez a maior partida de sua vida pelo Santos contra o Fluminense. Ambos conquistaram o reconhecimento da torcida. E isso não tem preço. O desejo de ser reconhecido é a grande fraqueza humana, e nada se pode fazer. Essa carência faz parte da nossa natureza mais profunda. Talvez esse fator humano seja o que ainda possa introduzir alguma dissonância na lógica mercantil do futebol e salvá-lo da esterilidade prematura. Por exemplo, o que pode querer alguém, como Ronaldo, que já tem tudo, dinheiro a rodo, títulos, troféus, fama internacional? Questão complexa, que leva a outra. Ronaldo só se tornou unanimidade no Brasil quando veio jogar pelo Corinthians. Até há pouco, era jogador idolatrado por uns e contestado por muitos. Cansei de ouvir que suas atuações pela seleção foram oscilantes, para dizer o mínimo: catastrófica em 1998, decisiva em 2002, desleixada em 2006. Por que Ronaldo veio para cá, se poderia ter ido para outra parte? E por que abdicamos do espírito crítico ao recebê-lo? Suspeito de que algo tenha a ver com a nossa imensa carência de ídolos e com o desejo de Ronaldo de ser reconhecido em seu próprio país. Suposições...

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