Novos hábitos e a salvação

Antes que comecemos a pensar em outras coisas, antes que o Campeonato Brasileiro esquente de novo, e que o Felipão se imponha como assunto de todas as colunas, gostaria de fazer algumas reflexões, certamente inúteis, sobre acontecimentos que me tem preocupado.

Ugo Giorgetti, ugog@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

Frequentemente penso sobre esses jovens jogadores que surgem no Brasil. O que sabemos sobre eles? Nada. Pertencem a um mundo inteiramente desconhecido para gente de classe média boa, como somos eu e provavelmente a maioria dos leitores do Estado. Estou certo de que essa profusão de filmes feitos sobre a periferia, esse monte de publicações, estudos e matérias não nos esclarecem em nada.

Falam e estão sempre na superfície. Pensam que retratam alguma coisa, mas nunca o essencial. Porque o essencial está oculto, é muito amplo, muito vasto para o nosso entendimento. Vivemos completamente separados desse pessoal de baixíssima condição. A nossa única forma de contato é que falamos mais ou menos a mesma língua. O resto são diálogos profissionais, breves, escassos.

Mas de repente algo das profundezas emerge e então ficamos atônitos, como nesse caso do goleiro Bruno, do Flamengo, e daí me vem a pergunta: quem são esses jogadores? Como a cabeça deles processa as mudanças de estado social, econômico, etc., quando passam do quase zero para quatrocentos mil reais mensais?

Entre o zero e os quatrocentos mil reais está o segredo do que não sabemos. É nesse hiato que as monstruosidades se formam, porque a quem esse jovens recorrem para se adaptar ao novo estado? Em que modelos se baseiam? No que estudaram nas escolas? Nas imagens da tv? No que aprendem no ambiente do clube em que se iniciam?

Eles têm uma só alternativa de modelo: os evangélicos. Na medida em que outras religiões, por algumas razões, perderam força e contato com as massas, os evangélicos surgem como a grande salvação.

Há vários anos que venho observando, como qualquer torcedor, a entrada dos evangélicos no mundo do futebol. Desde os Atletas de Cristo até agora, um exército de jogadores religiosos se formou no Brasil. Chegaram inclusive à seleção brasileira, onde a influência evangélica começava já na comissão técnica que conduziu o Brasil na última Copa, na África do Sul.

Toda essa conversa evangélica, principalmente quando inclui uma dose de fanatismo, tende a irritar muito quem se formou no livre pensamento e dentro de uma certa tradição cultural que remonta há muitos anos, para não dizer séculos. Entregar-se a Jesus ou a quem supostamente o representa, parece não mais do que uma maneira de abdicar da própria independência e da própria autonomia.

Mas há o outro lado da questão e são exatamente esses últimos e tristemente policialescos acontecimentos no mundo do futebol que fazem pensar nele. Se a família constituída está em frangalhos, se a escola pública também, se o estado como um todo falha estrepitosamente em todas as instâncias, se o mundo da delinquência está sempre tão perigosamente perto dessa classe social, a fuga para a religião me parece natural para esses jovens que querem de qualquer maneira sobreviver aos perigos que vêm ou intuem.

E nesse sentido compreendo perfeitamente, e até apoio, a opção evangélica. Lamento apenas que seja a única. Penso que deveria haver muito mais opções disponíveis no horizonte do jogador brasileiro de classe baixa, desvalido e solitário.

Novos hábitos e a salvação

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