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Novos testes antidoping reescrevem a história olímpica

Investigação descobriu que mais de 75 atletas, das edições de 2008 e 2012, usaram substâncias proibidas

Rebecca R. Ruiz, The New York Times

07 de dezembro de 2016 | 13h11

Depois da revelação de um programa maciço de doping na Rússia, com as bênçãos do Estado, as autoridades esportivas vêm refazendo os testes de urina realizados nas Olimpíadas de 2008 e 2012, em Pequim e Londres – e os resultados levaram à mais completa alteração da história da competição.

E a nova investigação descobriu que mais de 75 atletas, de ambas as edições, usaram substâncias proibidas, a grande maioria russa e de outros países da Europa Oriental. Pelo menos 40 deles ganharam medalhas. Como os procedimentos disciplinares continuam contra outros atletas, o número de envolvidos só deve aumentar.

Quem der uma espiada nos registros dos recordes de Pequim e Londres sabe que eles não passam de ilusão – afinal dezenas de participantes estão perdendo os prêmios que receberam, redistribuídos para aqueles que não conseguiram um lugar no pódio.

"Os números são inacreditáveis. Perdemos a credibilidade, que sempre foi nossa grande preocupação", lamenta Gian-Franco Kasper, membro do conselho executivo do COI.

Os resultados da duplicação dos testes estão saindo em um momento de intenso escrutínio dos atletas russos. Em maio, o chefe do principal laboratório antidoping do país descreveu um esquema elaborado de fraude e, por isso, quase um terço da equipe olímpica russa foi impedida de competir nos Jogos do Rio.

Há algumas semanas, o Comitê anunciou penalidades para 16 atletas; dias depois, para outros doze. De repente, sem a menor cerimônia, alguns competidores olímpicos estão recebendo condecorações por desempenhos que tiveram há oito anos, inclusive alguns que terminaram em sexto e agora se veem como medalhistas de bronze.

"Mudou completamente a minha história", comenta Chaunté Lowe, especialista em salto em altura norte-americana que participou de quatro Olimpíadas, mas nunca levou nada.

Em casa, ela recebeu uma mensagem curiosa no Facebook de uma alemã com quem competiu em 2008: "Parabéns pela medalha de bronze."

Depois que as três atletas que terminaram na frente de Chaunté foram desclassificadas por doping – Anna Chicherova e Yelena Slesarenko da Rússia e Vita Palamar da Ucrânia – ela subiu para terceiro, tendo reconhecido o sucesso de um salto que deu quando sua filha, hoje com nove anos, ainda era um bebê.

"Comecei a fazer as contas. Peraí, sexto, quinto, quarto… ah, meu Deus, está certo. E chorei", conta ela, que originalmente tinha terminado em sexto lugar.

Junto com a alegria do reconhecimento tardio, veio a consciência das oportunidades perdidas. Em 2008, seu marido perdeu o emprego. A casa que os dois tinham na Geórgia foi executada no mesmo ano, coisa que, segundo ela, não teria acontecido se tivesse se destacado justamente em Pequim.

"Na época eu era novinha e prometia muito; os patrocinadores estavam de olho em mim, mas grande parte do interesse desaparece se você não consegue pódio", explica a atleta, hoje com 32 anos.

Para Edwin Moses, ex-campeão olímpico na corrida de obstáculos e presidente do conselho da Agência Norte-Americana de Anti-Doping, é difícil medir "a agonia de ganhar e perder, de ter uma medalha tirada de si".

"Não sei como você se recupera de algo assim", confessa.

O COI geralmente pede às federações que dirigem cada esporte que recolham os prêmios dos atletas sancionados e os redistribua.

Dos esportistas implicados até agora na repetição dos testes, a grande maioria competiu no atletismo e no levantamento de peso.

É prática padrão das autoridades olímpicas guardar amostras durante até uma década para poderem conduzir novas análises caso haja novas informações. Embora a primeira leva de repetição dos testes tenha começado em 2015, o diretor do laboratório antidoping russo contou ao New York Times, em maio, sobre um coquetel de substâncias proibidas que usou para melhorar o desempenho de dezenas de atletas ao longo dos último anos.

O Dr. Olivier Rabin, da Agência Anti-Doping Mundial, que vem ajudando o COI no processo, confirmou que as autoridades receberam informações relacionadas a drogas específicas consumidas pelos russos.

"Quando se presta atenção nas descobertas, fica bem clara a ligação com as informações recebidas", afirma ele.

Praticamente todas as violações, de todas as nacionalidades, envolveram os esteroides anabólicos Stanozolol ou Turinabol, os mesmos que garantiram à Alemanha Oriental a primazia do esporte nas décadas de 70 e 80. O segundo também foi protagonista de violações recentes nas ligas de beisebol dos EUA.

"São as boas e velhas drogas já fora de moda, mas muito eficientes para quem quer força. É por isso que continuam sendo usadas", afirma Rabin.

As substâncias proibidas não foram detectadas pelo laboratório do COI, anos atrás, durante os Jogos, porque, na época, a ciência não tinha capacidade suficiente para apontar concentrações residuais tão pequenas, segundo explicação do Dr. Richard Budgett, diretor científico e médico do COI.

Os novos métodos, porém, aumentaram o período de tempo durante o qual as drogas já conhecidas podem ser detectadas no organismo.

"A ciência progride diariamente. Nestes últimos cinco anos a sensibilidade dos equipamentos está cem vezes melhor/maior. O que antes era impossível, hoje é rotina", comemora Rabin.

Raramente as violações de doping são descobertas durante os Jogos. Em Londres, por exemplo, o laboratório olímpico pegou apenas oito possíveis transgressões, uma fração das dezenas reveladas este ano.

"É muito triste, mas muitas vezes o atleta vai para essas competições tipo, 'Melhor ficar o mais perto possível dos três primeiros porque nunca se sabe que vai ser pego do doping'.", lamenta Lowe.

Com a repetição dos testes do COI, os resultados dos últimos Jogos de Inverno também podem ser alterados. Por enquanto, as autoridades estão concentradas nas amostras dos Jogos anteriores para garantir que não deixarão passar os infratores que porventura tenham participado da competição no Rio, em agosto.

Antes da Olimpíada de Inverno de 2018, em Pyeongchang, na Coreia do Sul, o COI deve se dedicar às amostras dos Jogos de 2010, em Vancouver. Seus oficiais já analisaram mais de 500 exemplares da competição realizada em 2006, em Turim, mas não forneceram detalhes sobre o número de infrações confirmadas.

Com as consequências do escândalo ainda repercutindo, é mais que certo que as medalhas de 2014 em Sochi também sejam questionadas, principalmente depois que a Agência Anti-Doping Mundial publicar os resultados da investigação sobre os atletas russos que participaram da competição usando substâncias proibidas e cujas violações foram ocultadas por uma operação coordenada pelo governo. Entre eles há pelo menos quinze medalhistas, de acordo com o que disse o diretor do laboratório anti-doping russo ao New York Times.

Um número tão grande de infrações cometidas pela delegação de um único país em uma única Olimpíada pode forçar as autoridades esportivas a já começarem a pensar em penalidades para a próxima disputa.

"É muita pretensão dizer que a justiça está sendo feita, mas não estamos parados", diz Francesco Ricci Bitti, presidente da Associação das Federações Internacionais das Olimpíadas de Verão e ex-presidente da Federação Internacional de Tênis.

Kasper, executivo suíço do COI que também é responsável pelo esqui, é mais pragmático.

"Precisamos parar de fingir que o esporte é limpo. Em princípio, a ideia pode até ser nobre, mas na prática? É entretenimento. É drama", conclui.

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