Número 1

Até pouco tempo atrás via os europeus como campeonatos de outro planeta. Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha... Tudo me fascinava. Ainda gosto de acompanhá-los, sinto prazer em ficar na frente da telinha para assistir aos jogos de Barcelona, Real, Milan, Manchester, Bayern. Mas, com a licença dos amigos do Primeiro Mundo, digo com convicção: o Brasileirão é, de longe, o melhor de todos.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2011 | 00h00

Que competição tem invariavelmente três ou quatro clubes brigando pelo título até a rodada final, como ocorreu por aqui nos últimos dois anos e deve se repetir agora? Em que torneio o lanterna faz 4 a 1 num dos primeiros colocados, como houve no fim de semana no confronto entre América-MG e Vasco?

O campeonato no Brasil tem emoção, equilíbrio, disputa acirrada e imprevisibilidade, diferentemente do que se vê nas nações mais desenvolvidas, em que Barça e Real, Manchester e Chelsea, por exemplo, passam uma temporada inteira praticamente sem perder para os "menores".

É claro que na questão técnica os grandes da Europa ainda são superiores aos grandes daqui. Não temos um time como Barcelona, Real ou Manchester. Os pequenos de lá, no entanto, são muito ruins, bem piores que os nossos pequenos. O que torna os campeonatos óbvios demais e, consequentemente, menos interessantes. Vale muito pelo desfile das várias estrelas, não pela disputa em si.

Nosso pecado é outro. Faltam organização, segurança e conforto nos estádios. Por isso, somos goleados em média de público. Assistir a um jogo no Bernabéu, por exemplo, é um programão. Estacionamento, restaurante interno, assento numerado, segurança. Para ir ao Morumbi ou ao Engenhão, tudo é difícil. Desde a chegada - para encontrar um lugar para guardar o carro -, na plateia, onde não se respeita o lugar marcado, até a saída, em que regularmente há confronto de torcidas. Dentro do campo, porém, sou mais Brasil. E estou longe de me considerar um patriota fanático, daqueles que choram pela seleção.

O torcedor, porém, vai aos poucos se acostumando com a ótima fórmula dos pontos corridos - estamos na nona edição com esse formato - e tem prestigiado sua equipe, apesar das dificuldades.

Anteontem, o Morumbi recebeu mais de 60 mil são-paulinos para a justíssima homenagem ao melhor jogador da história do clube, Rogério Ceni, e também para empurrar o time na luta pela liderança. O Engenhão abrigou 42 mil pessoas para acompanhar mais um capítulo da incrível (e, para mim, inesperada) ascensão do Botafogo. O Pacaembu ficou lotado, ontem, para o clássico das multidões Corinthians x Flamengo. E as vendas de pacotes de pay per view têm crescido ano a ano.

As rodadas sempre reservam uma ou outra surpresa, e as mudanças na tabela são frequentes. Não podemos exaltar o nível técnico desta edição, aquém das tradições do futebol brasileiro, mas ainda assim temos grandes nomes como Neymar, Ganso, Marcos, Rogério, Ronaldinho, Damião...

Os pontos corridos tornaram boa parte das partidas com cara de decisão. E cada pontinho é fundamental, ao contrário do que ocorre entre os europeus, principalmente na Espanha, em que um tropeço muda pouca coisa. Torço muito para que esse sistema de disputa se eternize por aqui, apesar da pressão de muitos pela ressurreição do mata-mata.

Se estivéssemos no mata-mata, o leitor acha que a vitória do São Paulo sobre o Atlético-MG seria tão comemorada como foi? Ou o jogão Corinthians x Flamengo teria status de final? Para mim, não. Com oito classificados para as quartas de final - como funcionava até 2002 -, corintianos, flamenguistas e são-paulinos já estariam praticamente garantidos na fase seguinte e jogariam daqui para a frente somente para assegurar a irrisória vantagem de decidir em casa na etapa eliminatória. Ou seja, tira-se a graça do campeonato durante vários meses para depois buscar a emoção em três ou quatro semanas.

Vamos para a 23.ª rodada do Brasileirão e ainda não se pode apontar um favorito ao título. Mais uma vez, a disputa será contagiante até o fim.

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