Nunca será esquecido

Da mesma forma como começou, lá pelo longínquo março, está terminando o ano da Fórmula 1. Já estou de novo no outro lado do mundo. É a 38.ª final de Mundial desde que comecei a acompanhar de perto a F-1 e é indiscutível a conquista territorial nesses anos todos - sete GPs na Ásia - mas também ficou mais difícil acompanhar as corridas. Logo que cheguei, na noite de quarta-feira, encontrei a inglesada toda no bar do hotel, na verdade em autêntico pub, inclusive com futebol inglês ao vivo na TV. Aqui, por conta do domínio britânico exercido até 1971, eles se sentem em casa, do idioma aos pubs. Aliás, como os treinos e a corrida só acontecem à tarde (largada 17 horas), este é o paraíso dos mecânicos, quase todos ingleses. Eles têm mais tempo de cerveja após cada dia de trabalho.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Dos sete estados (cada um governado por um emir) que constituem os Emirados Árabes Unidos, Abu Dabi é o maior, com 87% da área. Só de litoral, são 400 quilômetros do Golfo Pérsico. O autódromo fica na ilha de Yas Marina ao lado do parque temático da Ferrari, que é a atração permanente do local. Ao redor, uma dúzia de grandes hotéis. Daqui até o centro de Abu Dabi, meia hora de carro por estradas de dez pistas, cercadas por obras espetaculares. O motorista que me acompanha, Mohammed Asif Munsif Khan, que chegou por aqui 23 anos atrás, assistiu a tudo isso nascer em cima da areia do deserto.

Se no início de tudo seis pilotos curtiam sonhos concretos de título, agora o grupo se reduz a três. As chances de Hamilton são tão pequenas que nem ele pode ter esperanças. Alonso é favorito, mas tecnicamente Webber e Vettel têm maiores chances de vitória. E se os dois chegarem à frente de Alonso, só vai depender da ordem entre eles para o espanhol ficar sem o título. Se Webber for primeiro e Vettel segundo, a equipe Red Bull leva o título de pilotos para somar ao título de construtores que já conquistou no Brasil. Seria a vitória completa de quem sempre teve o melhor carro, ganhou oito até agora, fez 14 pole positions e liderou mais da metade das corridas (659 voltas de um total de 1.074). Mas não é o resultado dos sonhos de quem manda na equipe. Dietrich Mateschitz, o dono e criador da Red Bull, e Helmuth Marko, ex-piloto e homem forte do comando da equipe, querem ver Sebastian Vettel campeão.

Até pensei que pudessem dar uma mãozinha ao Webber no Brasil, mas errei. Christian Horner queria, mas foi voto vencido. Só que agora a situação é outra. Vettel depende de um resultado desastroso para a Ferrari, que seria um 5.º lugar de Alonso. Isso está muito abaixo da média do espanhol no segundo semestre - 4 vitórias, 1 segundo e 2 terceiros em 8 corridas. Em uma delas (Bélgica), ele bateu e não terminou. Pode acontecer de novo, mas pouco provável.

Portanto, eu vou arriscar de novo: acho que, desta vez, se a conquista de Webber depender disso, a Red Bull topa uma troca de posições na pista. A Austrália, que não tem um campeão desde Alan Jones em 1980, agradeceria. A equipe já jogou esportivamente até agora e não será criticada se fizer um jogo na última etapa do ano para não deixar o título de pilotos cair nas mãos de Alonso. O título de construtores vale bastante, inclusive financeiramente. Mas o que fica para a história é o Mundial de Pilotos. Webber precisa de si mesmo e de Vettel para não deixar que Alonso seja segundo. Mas se o espanhol estiver para baixo do 4.º lugar, também não serve. Neste caso, Vettel só teria de vencer a corrida para ser campeão. Portanto, não resta outra alternativa a Webber que não seja andar na frente também do companheiro. Agora, se isso acontecer e o Alonso tiver problema, só faltava a equipe dar ordem para que ele deixe Vettel ganhar. Aí é o caso de desobedecer, receber a taça, encerrar a carreira e entrar para a história. Nunca será esquecido.

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