Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Nuzman volta a negar compra de votos para escolha da Rio-2016

Ex-presidente do COB é investigado por suposta fraude no processo que definiu a cidade como sede da Olimpíada

Roberta Pennafort / Rio, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2018 | 17h33

Acusado de comprar votos para que o Rio de Janeiro fosse a sede da Olimpíada de 2016, o ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Comitê Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, voltou a negar nesta quarta-feira, 22, em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, ter se envolvido ou ter sabido que houve pagamento de propina no processo de escolha do Comitê Olímpico Internacional (COI). “Não tive ciência, não tive contato, não participei”, afirmou Nuzman. Ele disse também que “a campanha (do Rio) não tinha lobistas”.

Ele foi interrogado pelo juiz da 7ª Vara Federal Criminal no escopo das investigações da Operação Unfair Play, desdobramento da Lava Jato no Rio que investiga suposta fraude na escolha da cidade-sede dos jogos. Nuzman teria intermediado a compra de votos via propina a integrantes africanos do COI.

A Bretas, ele relatou que participou de reuniões regulares com membros do COI, em que não foram tratados pagamentos escusos. “Não conheço nenhuma proposta de compra de votos, nenhuma ação que pudesse ter gerado isso”, declarou Nuzman, que está escrevendo um livro sobre os bastidores dos jogos.

Para a Justiça, o ex-presidente do COB, ao comprar votos, fez parte do esquema de corrupção atribuído ao ex-governador Sérgio Cabral (MDB), que teria movimentado mais de R$ 1 bilhão em dois mandatos no Rio (2007-2014), em áreas como transportes, obras e saúde.

Neste caso, Cabral teria agido em conluio com o empresário Arthur Soares, conhecido como Rei Arthur. O interesse de Cabral seria trazer os Jogos para, a partir daí, desviar recursos de obras para a preparação da cidade, indicam as investigações. Nuzman afirmou nunca ter estado com Rei Arthur.

Cerca de US$ 2 milhões (R$ 8 milhões, em valores atuais) teriam sido pagos ao membro do COI Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo, senegalês responsável por repartir a propina com outros integrantes que se comprometeram a votar no Rio. O acerto teria sido feito em 2009, pouco antes de o Rio ser anunciado cidade olímpica.

De acordo com Nuzman, o que houve por parte de Diack foi um pedido de realização de eventos de atletismo no Rio, e não conversas sobre propina em troca de voto na cidade: “Até aí eu participei. A partir daí não participei de mais nada, e também não tive conhecimento.” Ele disse ainda que fez visitas de cortesia a Diack, como a outros membros do COI: “Eu tinha que viajar e fazer contato com os membros. Eu fiz com todos os membros”.

Bretas e também a procuradora da República Fabiana Schneider o questionaram diversas vezes sobre e-mails que seu então braço-direto Leonardo Gryner, ex-diretor de operações do Rio 2016, também investigado, trocou com Diack e seu filho, Papa Diack, sobre os pagamentos – inclusive com detalhes sobre transações bancárias.

Nuzman disse não ter conversado com Gryner sobre isso à época e que era usual receber e-mails com solicitações de federações internacionais. Afirmou também que não tinha como ter conhecimento de tudo o que se referia à Olimpíada nem todos os passos de Gryner.

A procuradora pontuou que ele foi presidente do COB por 22 anos. Nuzman alegou que seu então diretor tinha “autoridade para negociar”, por sua experiência profissional. A campanha tinha várias diretorias e elas “tinham autonomia para negociar”, sustentou.

“Isso podia ter ocorrido quando estava viajando. Eu desconhecia. (O conteúdo de e-mails) Não me causou estranheza, porque eram coisas normais. Não respondi nenhum e-mail do senhor Papa Diack nem de seu pai. Um belo dia ele disse que ‘estava tudo resolvido’ num e-mail que recebi. Não me preocupei como foi resolvido”, disse.

Segundo Nuzman, pedidos de eventos esportivos anteriores aos jogos nas cidades candidatas são rotineiros entre membros do COI, e que não houve qualquer “particularidade de que devesse desconfiar”.

Bretas ressalvou que o Rio apresentou uma campanha alentada para merecer a Olimpíada: “Não se discute que houve uma campanha efetiva (do Rio). Não é ‘chegou lá, pagou e ganhou’. Mas ainda que tenha sido uma campanha maravilhosa, perfeita e técnica, o que está se discutindo é um ponto específico, que possivelmente teria havido pedido disfarçado de algum tipo de dinheiro”. Nuzman seguiu negando ter conhecimento de qualquer tipo de irregularidade. Garantiu também que só foi usado dinheiro privado nos trâmites da campanha, não público.

No depoimento, o ex-presidente do COB negou ainda que tenha procurado Sergio Cabral em 2007, quando ele assumiu o Estado, para levar o pleito da realização da Olimpíada em 2016. Disse também que nunca foi seu amigo. Sobre Sergio Côrtes, secretário de Saúde da gestão Cabral e que foi um nome importante na estrutura do esquema do ex-governador, ele explicou tê-lo conhecido no passado porque Côrtes foi médico da seleção brasileira de vôlei (Nuzman era presidente da confederação do esporte).

Já denunciado pelo Ministério Público Federal no Rio por corrupção, organização criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, Nuzman ficou preso em 2017 e está em liberdade por força de uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Cumpre medidas restritivas (não pode viajar para fora do País nem manter contato com outros investigados, por exemplo).

Sobre as 16 barras de ouro que foram apreendidas em sua casa no ano passado, Nuzman afirmou que em 2014 transformou fundos que tinha no exterior desde o fim dos anos 1980 em ouro. Ele só tentou regularizar as barras junto à Receita Federal após o início da Unfair Play.

Nuzman encerrou o depoimento dizendo que recebe agradecimentos da população carioca nas ruas pelas melhorias urbanas na cidade na esteira da Olimpíada. Negou que tenha recebido qualquer vantagem com as obras e afirmou que, na condição de ex-atleta e dirigente, realizar a Olimpíada na cidade foi “a vitória” da sua vida.

 

 

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