O 10 e a área

Paulo Henrique Ganso mal entrou na casa dos 20 anos, tem pouco tempo como profissional e já atingiu status de protagonista. Com rapidez compatível com a era de Twitter e Facebook, se tornou referência no Santos e ganhou espaço na seleção. Astro, maestro, craque. Esbanjam-se adjetivos para defini-lo. Nos dois times, coube-lhe a camisa 10, com o fascínio e as obrigações que ela impõe. Só que o jovem paraense ainda não se deu conta de alguns aspectos da responsabilidade que ela acarreta.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2011 | 00h00

Alguém pode dizer que 10 é um número como os outros. O quê?! Só na aparência. Apesar de valores antes caros ao futebol estarem em baixa, a 10 mantém respeito, chama a atenção - ontem, hoje e sempre. Não é a mesma coisa que a feminina 8, a pançuda 5, ou a rechonchuda 6. Muito mais significativa do que combinações horrorosas como 77, 30, 95, 42 e outras bobagens macaqueadas da NBA.

A 10 dá até um pouco de medo, se o sujeito parar para pensar naquilo que ela simboliza. No caso do Ganso, então, pesa algumas toneladas, porque nos Anos de Ouro seu dono, tanto na Vila Belmiro quanto na amarelinha, foi ... Preciso dizer? "Ele", como resumia à perfeição Walter Abrahão, uma das vozes marcantes da crônica esportiva que dias atrás foi narrar jogos no céu.

O 10 organiza, harmoniza, cadencia, toca, prende, acelera. São inúmeras as funções do regente. Uma delas, fundamental para compor a imagem, é chegar na área com imponência e faro de gol. 10 que se preze e intimida adversários também tem de marcar gols. Não precisa ser artilheiro, como Pelé, Zico, Dinamite, para ficar em alguns 10 portentosos. Mas deve estufar as redes com regularidade, como Ademir, Neto, Zenon, Pedro Rocha, Ronaldinho Gaúcho. Deve ser figurinha carimbada na "zona do agrião".

Não comete pecado mortal na religião da bola um 10 que não anote muitos tentos. (Esta também sai como homenagem a locutores das antigas.) Mas paira no ar a sensação de que o meia com pouco apetite para matador carece de pitada de perfeição. Esse requinte falta ao Ganso - já detectado por quem está próximo dele e desvendou os mistérios da grande área. Como Muricy Ramalho. O treinador tem lhe mostrado as vantagem de "apresentar-se" para concluir jogadas e não apenas criá-las.

Ganso não tem traquejo nesse setor. No entanto, parece que absorve lição, a mesma que um dia Telê Santana ensinou para Raí e o transformou em criador/passador/goleador. No sábado, na derrota do Santos para o Atlético-GO, houve um cruzamento em que Ganso apareceu na marca do pênalti para chutar. Encheu o pé, a bola foi longe da meta. Fosse centroavante, seria castigado com os mais cabeludos palavrões. Mesmo assim, foi um avanço, sinal de que está em busca de aprimoramento.

Independentemente de perícia para arrematar, Ganso anda dispersivo - e disso se ressentiu a seleção na Copa América e o Santos no Brasileiro. Explicações sobram para a má fase: longa inatividade, viagens constantes, compromissos comerciais a torto e a direito, desgaste psicológico por celeumas em torno de seu futuro. O conjunto influi no futebol refinado do moço, que está descalibrado. Torço para que apareça logo, de preferência hoje à noite, contra o Coritiba. O Santos necessita da arte de PH para sair do sufoco, pois 7 derrotas e 3 empates em 14 jogos é campanha de time que faz força para cair e não de quem se prepara para o Mundial de Clubes. Hora de Ganso & Cia Ltda enfiarem o pé na jaca. E bola na rede.

Voz da experiência. Rivaldo aconselhou Neymar, Ganso e Lucas a saírem logo do Brasil. Na avaliação do veterano craque, assim rapidamente terão reconhecimento internacional. Não se devem desprezar os conselhos de quem brilhou no exterior e chegou a ser o melhor do mundo (em 1999). Mas algo mudou no futebol brasileiro. Os times estão longe do ideal, porém não se mostram desesperados para negociar seus talentos por qualquer preço e ainda lhes pagam bem. Espero que não esteja longe o dia em que velhos legionários como Rivaldo recomendem aos jovens que fiquem.

Perigo para o líder. O Atlético-MG flerta firme com o rebaixamento, despachou Dorival Júnior e chamou Cuca, que até agora não acertou. Por isso mesmo, o Corinthians corre risco danado no clássico de hoje em Ipatinga. Contradição sem-vergonha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.