O abridor de latas

KAKÁ AINDA NÃO CONSEGUIU SER O JOGADOR DAS ARRANCADAS, MAS FOI DECISIVO NOS PASSES

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2010 | 00h00

Kaká ainda não conseguiu ser o jogador das arrancadas, da força, da velocidade, mas foi decisivo no passe dos últimos metros. Compensou limitação física com inteligência, artigo raro neste Mundial, e terminou expulso injustamente num jogo sem juiz. Partiram dele duas bolas que romperam a defesa da Costa do Marfim como um abridor de latas.

A seleção brasileira fez partida segura, mesmo ainda desequilibrada taticamente, um problema que dificilmente será resolvido. O detalhe foi a proximidade entre Kaká, Robinho e Luís Fabiano, fundamental para uma equipe que pende para o setor direito, o mais ofensivo e defensivo no esquema de Dunga. Não foi desta vez que se pôde contar com Michel Bastos. A falta de consistência na esquerda obriga Robinho a circular, atraído pelo volume de jogo.

A Costa do Marfim não produziu surpresas. Os africanos jogaram como se esperava, apenas Drogba acima de duas linhas de marcação enquanto o placar se mantinha intacto. É a natureza desta Copa do Mundo, o meio-campo entra na luta pela bola que escorre nas laterais.

O time de Sven-Goran Eriksson é um 4-3-3 protegido por três marcadores quando ataca e um 4-5-1 quando é atacado. O treinador sueco rabiscou o roteiro da primeira fase sobre a tabela da Copa. No início, muita marcação e pouco risco diante de brasileiros e portugueses. Com dois empates, acreditava ser possível acelerar para vencer e fazer saldo de gols sobre os norte-coreanos. Complicou.

O confronto foi prejudicado por um banana vestido de árbitro. O francês Sthefane Lannoy jamais esteve a ponto de assumir o controle da partida, tampouco viu Luís Fabiano usar o braço para fazer um daqueles golaços que se costuma definir como de Copa do Mundo.

Depois de 29 partidas, a grande imagem do Mundial surgiu num replay do segundo gol brasileiro: sorridente, o árbitro gesticula e pergunta a Luís Fabiano se o atacante não havia usado o braço para dominar a bola e fazer o gol. Era o que faltava.

Apesar das dificuldades já conhecidas e a expulsão de Kaká, o jogo serviu para pôr o Brasil definitivamente na Copa e fazer subir a cotação do respeito. A seleção enfrentou um adversário fisicamente muito forte e respondeu com valentia, força e inteligência. Não foi espetacular, mas Copa é isso. Estamos nela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.