O adeus do senhor da Olimpíada

O ex-presidente do COI Juan Antonio Samaranch morreu ontem e deixou de herança uma competição global e altamente rentável

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

Morreu ontem, aos 89 anos, em Barcelona, o presidente de honra do Comitê Olímpico Internacional (COI), Juan Antonio Samaranch. Polêmico e acusado de ter apoiado regimes autoritários, foi também reconhecido como salvador dos Jogos Olímpicos de falência política e financeira.

Samaranch transformou os anéis olímpicos na marca mais valiosa do esporte e superou divisões políticas. Depois do Barão de Coubertin (1896 a 1925), foi quem mais tempo comandou o COI. O dirigente estava internado desde a última segunda-feira com insuficiência cardíaca aguda.

Sua família fazia parte da elite industrial da Catalunha. Nos anos 1950, era fervoroso admirador do general Francisco Franco. Foi presidente da Caixa de Poupança da Catalunha e deputado. Em 1967, o ditador o escolheu como ministro do Esporte. "O mandato de Franco significou o período mais longo de prosperidade e paz que o nosso país conheceu por séculos", afirmou.

Uma foto dele fazendo saudação fascista em 1974, descoberta no ano passado, gerou polêmica entre ativistas de direitos humanos. Nos anos 1970, Samaranch foi designado para ser embaixador da Espanha em Moscou.

No COI, começou em 1966, quando Franco conseguiu colocá-lo como delegado espanhol. Em 1974, já era vice-presidente. Em 1980, chegou à cúpula. A entidade estava fragilizada e sem credibilidade. Seus membros já admitiam que o movimento olímpico estava com os dias contados e que Samaranch iria apagar as luzes da sede em Lausanne.

Não foi o que ocorreu. O brasileiro João Havelange, presidente de honra da Fifa, alega que foi ele quem sugeriu Samaranch para presidente. O brasileiro, membro do COI, ainda convenceu Adolf Dassler, fundador da marca esportiva Adidas, a também apoiar Samaranch. Cinco anos depois, a empresa fechou acordo milionário com a entidade.

Caixa vazio. Michael Peney, um dos assessores pessoais de Samaranch, conta que, quando o espanhol assumiu a organização, descobriu que havia apenas US$ 200 mil em caixa. O COI estava falido. Em 21 anos, se tornou um dos homens mais influentes da história do movimento olímpico. Trouxe patrocinadores e vendeu a preço de ouro o direito de transmissão.

"Samaranch salvou os Jogos da destruição e o transformou em evento global", disse ontem o vice-presidente da entidade, Thomas Bach. "Depois de Coubertin, foi o presidente mais influente. Abriu o COI à era moderna", disse. Para isso, eliminou a diferença entre esporte amador e profissional.

Politicamente, Samaranch foi beneficiado pelo fim da Guerra Fria, o que permitiu que os boicotes acabassem. Mas não economizou esforços para tornar os Jogos Olímpicos em fenômeno da globalização. Ao assumir em 1980, não havia cidades candidatas para receber o evento em 1988. Apenas Seul e Nagoya foram convencidas a concorrer.

Os Jogos de 1984 em Los Angeles foram os primeiros com superávit desde 1932. A cidade ganhou US$ 230 milhões. A notícia entusiasmou várias candidatas para 1992. Mas Samaranch liderou quase que pessoalmente a candidatura de Barcelona.

Com o sucesso financeiro reconquistado, o espanhol começou então um minucioso trabalho para trazer de volta ao COI todos os países e, para isso, se encontrou com líderes de todas as tendências políticas. Em1984, convenceu a China. Em 1988, os Jogos na Coreia acabaram sendo fundamentais para a consolidação da democracia no país.

O COI ainda foi o primeiro a readmitir a África do Sul como membro de entidade internacional, após o fim do apartheid.

Com a guerra da Bósnia e o fim da União Soviética, Samaranch driblou a política internacional. Os iugoslavos participaram à título individual, enquanto os ex-soviéticos participaram dos jogos de Barcelona como "equipe unificada". Cuba e Coreia do Norte também aceitaram participar do evento na cidade de Samaranch que acabaria sendo a primeira Olimpíada de fato global.

O dirigente colocou a primeira mulher na entidade e ainda fez questão de tentar equiparar o número de atletas mulheres aos homens nos Jogos. Criou a Agência Mundial Antidoping, depois dos escândalos de 1988, prevendo prejuízos aos patrocinadores.

Corrupção. Se o espanhol passou a ser considerado visionário, seu mandato ainda foi marcado pela corrupção e modificações de regras. Alterou o estatuto olímpico para permitir sua reeleição de forma indefinida. Foi reeleito em 1989 e 1993. Em 1995, mudou a idade máxima para ser presidente para 80 anos e, assim, conseguiu ser eleito em 1997. Passou a viver em dois quartos de um luxuoso hotel de Lausanne, que custavam ao COI US$ 500 mil por ano.

Ele ainda foi obrigado a limitar o mandato dos presidentes do COI a 12 anos e criar um comitê de ética. Em 2001, deixou o cargo no COI e foi sucedido pelo belga Jacques Rogge. Antes, fez questão de garantir que a China fosse escolhida para receber os Jogos de 2008.

Mas deixou um herdeiro no COI. O filho Juan Antonio Júnior foi eleito em 2001 como membro vitalício. Ontem, o atual presidente, Jacques Rogge, afilhado político de Samaranch, fez questão de dizer que o espanhol foi um "visionário". "Ele construiu os Jogos Olímpicos da Era Moderna", disse Rogge.

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