O amor

Você sabe o que é o amor? Essa é uma pergunta que ninguém espera ver na abertura de uma coluna de esportes. Mas eu insisto: você sabe o que é o amor? Minha resposta a essa questão tão espiritual, por assim dizer, varia de acordo com a ocasião. Quando as coisas estão bem, tendo a achar que todas as pessoas do mundo, cada qual à sua maneira, sabe exatamente o que é o amor. Já quando a minha fé no ser humano anda em baixa, sou capaz de jurar que ninguém sabe nem jamais saberá que raio de sentimento é esse. Mas meus momentos de desânimo são raros, pois, se ainda não perceberam, além de sentimental, sou um otimista juramentado. Eu sei o que é o amor. E passei a ter maior convicção nele depois de assistir a Palmeiras x Sporting Cristal, na última quinta-feira.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2013 | 02h06

Eu não sou palmeirense, mas, com o coração calejado de um torcedor que conhece o odor amargo da grama dos estádios da Terceira Divisão, posso garantir que compreendo a devastação que se abateu sobre a torcida palestrina nos últimos tempos.

Se você torce pelo Verdão, sabe do que estou falando. Se não torce, faça o abnegado exercício de se colocar na pele desses torcedores, ao menos até eu pingar o ponto final neste texto. Imaginem um clube que, depois de muitos anos longe das glórias, consegue um título. Um título singelo, que em décadas mais fartas seria comemorado com o comedimento dos enfastiados. Para quem já disputou um Mundial, a Copa do Brasil não é muito, mas, para quem atravessa uma grande seca, aquela taça foi como água de nascente. Ou melhor: água benta, capaz de promover milagres e ressurreições.

Tudo ilusão. Tão logo a volta olímpica se encerrou, o Palmeiras passou a travar dolorosa luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Uma luta da qual trazia feridas não cicatrizadas. A agonia durou até as últimas rodadas, com o desfecho que todos temiam.

E foi assim que o Palestra, que já havia se remoído quando o arquirrival Corinthians conquistou o único título que não tinha - a Libertadores -, provou da lama do fundo do poço, ainda em luto pelo rebaixamento, ao ser forçado a assistir à apoteótica comemoração do título mundial alvinegro. Ato final da ironia divina, a Mancha Verde foi rebaixada para o segundo grupo do carnaval paulista.

Luto? Sim. Dor? Imensa. Mas que ninguém se iluda: quando a bola rola, o amor fala mais alto. Quando uma Libertadores está em jogo, o torcedor alviverde diz presente. Sempre foi assim. Assim sempre será. O atacante matador e referência do elenco foi embora? Não importa. O time é inferior ao dos rivais? Dane-se. O verdadeiro torcedor vai ao estádio para ganhar ou perder, mas sempre para amar.

Foi assim no jogo de quinta-feira. A vitória acabou chegando. Sofrida. Tímida. Se existe um torcedor racional, ele deve ter deixado o Pacaembu convicto de que as chances são mínimas. Mas eu, que sei o que é o amor - como bem sei que não há torcedor racional -, posso garantir: não se espantem se, do amor daquela torcida que gritou seu orgulho mesmo em meio a tanta dor, vier a surgir um formidável time vencedor.

Tudo o que sabemos sobre:
Marcos Caetano

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.