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Ugo Giorgetti
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O astro

A televisão ainda não dominava tudo. Aliás, dominava bem pouco, aí por 1958, ano da Copa. Naquele período era o cinema, estou falando de Hollywood é claro, que moldava nossos costumes, nossa visão de mundo e interferia no nosso cotidiano. O tempo era dos grandes cinemas de mais de mil lugares, espalhados pelos centros das grandes cidades. Os astros eram gigantes, viris, valentes e confiantes, na maioria loiros de olhos claros e límpidos, tipo Burt Lancaster, Charlton Heston, Paul Newman ou John Wayne, não exatamente loiro, mas com as outras qualidades. Nada desses heróis baixinhos de hoje, cheios de incertezas e hesitações, de nomes vagamente latinos, tipo Al Pacino. Nada disso. Aquele era o tempo dos westerns, dos homens fortes.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h04

Nesse ambiente, o Brasil foi para a Suécia e para a Copa. Ao terminar o torneio, o Brasil pôde finalmente apresentar ao mundo nosso lado hollywoodiano, um sonho obsessivo, sempre alimentado pela nossa pequena elite urbana, mas nunca antes alcançado. Tínhamos finalmente nosso herói, branco, belo, forte e viril como um astro de cinema. Não um astro de cinema nacional, bem entendido, como Grande Otelo, por exemplo, mas um astro de filme americano.

Efetivamente, numa foto que lembra fortemente o cartaz de um filme épico, o capitão brasileiro, num gesto de origem confusa, ergueu a taça como teria feito Charlton Heston em Ben-Hur, e eternizou não só seu feito, como uma nova visão que se pretendia para o Brasil. Éramos loiros afinal.

Tínhamos na equipe esse jogador que contrariava todas as imagens que se faziam do Brasil, desde a chegada dos primeiros navegadores. Podíamos finalmente apresentar ao mundo um Brasil branco, urbano e industrial que rondava pela cabeça de muita gente aqui na terra. Bellini foi nossa sorte. Com um pé na Europa, com esse nome que remetia diretamente a gênios da pintura e da música, era o homem ideal para ser fotografado como o Brasil que se desejava. Quem mais podia naquele time? Talvez Didi, o Príncipe Etíope, como dizia Nelson Rodrigues. Mas Didi era negro, portanto descendente de escravos, e não era exatamente essa mancha que gostaríamos de varrer para baixo do tapete? Não era esse o Brasil que gostaríamos que o mundo esquecesse, ao ver o apolíneo Bellini erguendo a taça? E não terá sido a famosa fotografia o momento culminante de uma empreitada que vinha sendo preparada desde o início com o quase o expurgo do elemento negro da seleção?

É preciso lembrar que o Brasil foi a campo para o primeiro jogo com um único negro, Didi, que não havia como evitar. Mas evitou-se Djalma Santos, Garrincha e Pelé. Desde 1950 ouvia-se, muitas vezes de maneira francamente audível, que o Brasil não ganhava por causa do elemento negro, que já entrava em campo intimidado e vencido. A tentativa em 1958 era evitar o mesmo erro. Não foi possível, felizmente.

Tivemos de recorrer a todos os gloriosos negros que encantaram o mundo. Mas restou pelo menos a foto para redimir todo o Brasil branco. Foi a foto que ficou, e nela não havia Garrincha, Pelé, Djalma ou Didi. Havia Bellini erguendo orgulhosamente a taça como um romano antigo. Teria alguém já entrevisto a possibilidade dessa foto compensatória quando Bellini foi escolhido para capitão? Havia outros, Didi entre eles. Mas havia também Nilton Santos, Dino Sani e Orlando. Bellini, porém, tinha algo mais. Vai que a gente ganha, pensou alguém. Algum jogador vai ter de receber a taça do rei da Suécia. E quem a gente manda? Alguém desse Brasil rural, que caça passarinho e não sabe nem em que continente está, ou um astro, forte e orgulhoso? E lá foi Bellini.

Esta semana esse jogador exemplar morreu. Não tinha nada de herói. Todos que o conheceram falam de um homem muito amável, companheiro e amigo. Foi enterrado na sua pequena cidade do interior de São Paulo.

Ficou a foto.

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