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Ugo Giorgetti
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O banquete

Tive um sonho que virou pesadelo. Nele eu me encontrava num jantar maravilhoso. Todas as comidas de que mais gosto tinham sido preparadas de um modo especialmente cuidadoso. Os mais requisitados cozinheiros certamente tinham se ocupado do preparo, porque poucas, pouquíssimas vezes tinha comido de modo tão delicioso. Cada prato me parecia mais surpreendente, sofisticado e saboroso do que o anterior. E eu me dedicava a todos com a mesma satisfação voraz.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h03

De quebra havia vinhos finíssimos, que eu fazia descer lentamente pela garganta, quase em câmera lenta, para melhor saboreá-los. Das sobremesas, prefiro não falar.

Depois do licor me preparei para acender o charuto adequado a divagações, reflexões e sonhos que acompanham uma lauta refeição. Queria que o charuto fosse uma pausa para recordar os pratos, cada prato e seus sabores, reviver cada um daqueles momentos inesquecíveis, recriar e saborear de novo, com a memória, o magnífico jantar. E eis que chega um garçom, bem naquele momento, me servindo uma segunda refeição. Parecia também muito boa, em alguns pratos eu podia reconhecer velhas predileções da infância. Mas eu não queria comer de novo, queria ficar ainda na companhia da primeira. Queria sonhar vagarosamente com a primeira.

O garçom insistia ali ao lado, com os novos pratos fumegantes, estragando completamente o prazer que ainda perdurava da anterior. O pesadelo foi esse. Que hora imprópria para nova refeição! Logo em seguida da esplêndida primeira. Quem jamais comeu duas vezes em seguida? E o garçom insistia, irritante, infatigável na sua modesta insistência. Consegui afastá-lo, não comi a segunda refeição, mas a magia da primeira tinha sido prejudicada. O encanto tinha desaparecido.

Falei desse pesadelo para esclarecer minhas sensações quando me disseram que ia haver um São Paulo x Corinthians logo depois da espetacular vitória do Brasil sobre Espanha. Queria ficar sossegado com minhas lembranças de domingo e já, dois dias depois, vinha me interromper um São Paulo e Corinthians! Nada contra esses velhos adversários de tantos anos, mas quem estava precisando dessa segunda refeição bem depois da memorável primeira? O que saboreamos domingo tinha que ficar suspenso no ar por um mês pelo menos. Arrasamos, destruímos, nos impusemos como faz tempo estava esperando. Foi uma satisfação tremenda ver ressurgir o futebol brasileiro justamente contra quem tinha sido elevado a mestre, a inventor de um novo jogo.

Passamos como uma divisão panzer sobre a posse de bola, a famosa "valorização da posse de bola" e outras besteiras que cansei de ouvir nos últimos tempos. Quem já viu um grande time que não valorizasse a posse de bola? Que time despreza a bola?

Cansei de ver meio-campistas argentinos trocando mais passes do que essa seleção espanhola. Cansei de ver jogadores, como Ademir da Guia, matando o jogo, trocando passes até o infinito, enredando lentamente o adversário numa teia imortalizada por João Cabral de Mello Neto. Até o retrancado Juventus de Milton Buzzeto não fazia outra coisa senão "valorizar a posse de bola", cansar o adversário até que este decidisse parar de correr. Mas era obrigado a calar porque tinha sido decretado um novo estado de coisas no futebol mundial. Todos tinham se tornado aprendizes da Espanha.

Esta seleção que aí está me redimiu. Redimiu o futebol individual, redimiu o arrojo e o destemor de uma seleção cinco vezes campeã. Por isso não me venham com São Paulo e Corinthians, ou qualquer outro próximo jogo. Peço a todas as Recopas da vida, Copas do Brasil, Sul-Americanas e outras competições do mesmo tipo que me poupem. Estive num banquete e não tentem me oferecer outra coisa tão cedo. Não preciso. Estou ainda no domingo passado. Não me tirem de lá, por favor.

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