O Barça e o futebol como deveria ser

O mundo do futebol ficou a semana passada inteira discutindo como o Manchester United deveria jogar para deter o Barcelona na final da Uefa Champions League. Noventa minutos depois, com mais um espetáculo individual de Messi e um extraordinário jogo coletivo, só restava aplaudir. Até uma lenda como sir Alex Ferguson admitiu o show de bola. Os números confirmam o massacre: 12 finalizações corretas contra apenas uma e 63% de posse de bola.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Há 25 anos no banco de reservas dos ingleses, Ferguson pode fazer o que quiser, até imaginar que Carrick e Giggs vão dar conta de Xavi e Iniesta. Para agravar a situação, Busquets, normalmente o primeiro homem acima da defesa, também deveria ter sido acompanhado. Estacionado na área de Van der Sar, aos 24 minutos do segundo tempo, foi dele o passe para Villa fazer 3 a 1.

A decisão da Champions ajuda a explicar José Mourinho nas duas partidas semifinais. Ao colocar Pepe sobre Messi, o treinador português buscou um recheio para suas linhas de marcação, e impedir o argentino de jogar no vazio, como fez no sábado.

Ferguson foi corajoso ou ingênuo demais ao idealizar o Manchester com um gigantesco déficit de marcação. Veja: o time catalão joga com Villa e Pedro pelos lados, abrindo a defesa contrária e a mantendo no fundo do campo. Para os zagueiros Ferdinand e Vidic, o melhor negócio seria ter Messi como centroavante. Assim um deles marcaria e o outro atuaria na sobra.

Mas o futebol do argentino começa muito antes, no meio de campo, setor inexplicavelmente abandonado por Ferguson, que teve Carrick, Giggs, Park e Valencia na marcação a Iniesta, Xavi, Daniel Alves e Busquets. O resultado foi uma enorme superioridade técnica, numérica e vida mansa para o gênio.

Messi conseguiu permanecer fora das duas linhas de marcação. Rompeu a primeira com dribles e desestabilizou a segunda, pois Ferdinand e Vidic passaram o tempo entre a tentação de deixar o posto para pressioná-lo e a observação das falhas no meio-campo. Por isso Mourinho colocou recheio na bolacha das semis. Até ser expulso, Pepe foi um problema, depois...

O futebol coletivo do Barcelona irrita a turma acostumada ao jogo virtual, amamentada com replays demais. A mobilidade construída sobre o talento, o treinamento e o passe deram ao Manchester apenas oito minutos para sonhar. Com bolas curtas, o grupo de Guardiola parece jogar num gramado menor que o do adversário.

O Barça ataca e defende com a mesma intensidade. São tarefas coletivas, inclusive para o craque. Messi participa de tudo, principalmente do jogo efetivado sobre triângulos, criado para jamais faltar o passe. É simples: quando Busquets receber a bola, preste atenção no comportamento de Xavi e Iniesta.

Uma final contém responsabilidade demais, além do nível suportado pelo bom senso. Com tantos fatos e teses em jogo, alguns enfrentamentos são vistos como se o futuro do esporte dependesse deles.

Todo mundo com alguma intimidade com a bola é capaz de identificar o jogo mais bonito, o que não significa torcer por ele. Nem sempre a beleza sensibiliza o coração. Foi o caso da partida de sábado, no mítico e renovado Wembley.

Perde-se muito tempo pensando em como parar o Barça e quase nada em como imitá-lo. Pode ser utópico, mas entender o funcionamento do time catalão é mais útil que agredi-lo. Messi, Xavi e Iniesta são únicos, mas o estilo pode ser universal, não foi inventado por Pep Guardiola.

O Barcelona joga o futebol total. É técnico, tático, quase sem faltas. Wembley viu uma das maiores finais da Uefa Champions League que se tem notícia. Ferguson só poderia aplaudir.

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