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'O biotipo brasileiro é o procurado pelos americanos'

Dirigente do Tampa Bay Rays no Brasil busca disseminar o esporte entre as crianças e adolescentes

Entrevista com

Adriano de Souza

RAFAEL PEZZO, O Estado de S.Paulo

04 Março 2015 | 07h00

Jogador profissional de beisebol dos 16 aos 30 anos, Adriano de Souza tem agora outra missão na carreira: ajudar a popularizar a modalidade entre as crianças brasileiras. Diretor de operações do Tampa Bay Rays no Brasil, ele fez a primeira parceria entre um time da Major League Baseball e uma agremiação amadora no País.

Nos últimos meses, a franquia da Flórida realizou uma série de ações para conseguir novos praticantes do esporte, que já é popular na colônia japonesa no Brasil. Em janeiro, organizou uma clínica de beisebol no Parque São Jorge, no Corinthians, para ensinar regras e técnicas básicas do jogo. Nos âmbitos profissionais, se uniu aos clubes amadores Brooklin Bullet Dodgers, de São Paulo, e São Bernardo Beisebol Clube e fez uma peneira no Parque Clube Tietê no fim de fevereiro.

"O Brasil tem bons atletas em diversos esportes, o biotipo físico do brasileiro é parecido com o procurado pelos americano e tem uma cultura semelhante à dos Estados Unidos. Por isso viemos ao Brasil buscar talentos", afirma Adriano de Souza.

Entre 2008 e 2009, a franquia do Estado americano da Flórida negociou com a cidade de Marília, interior de São Paulo, para a construção do primeiro centro de treinamento ligado à MLB no Brasil. O projeto corria bem até que o então prefeito da cidade foi deposto, em 2012, e o projeto, negado pela câmara. "Não vou mentir para você, mas o pessoal pensou em desistir. Prevaleceu, no entanto, a possibilidade de produzir bons atletas."

Por que o Tampa Bay Rays veio ao Brasil?

Há uns 15 anos, alguns times da Major League decidiram ir para o mercado asiático, China, Coreia do Sul. Só que eles não calcularam, por exemplo, a distância e o impacto cultural dos novos jogadores, além da demora que foi para revelar alguns atletas desses mercados. Baseados nesses experimentos, o pessoal então analisou que no Brasil tinha bons atletas em quase todas as modalidades esportivas (futebol, vôlei, basquete), a distância era mais curta e o impacto cultural seria menor, já que o Brasil tem muita coisa parecida com os Estados Unidos. E, lógico, o biotipo do brasileiro é muito parecido com o que os americanos procuram no beisebol. Então essa foi a razão que eles decidiram vir para o Brasil.

A primeira iniciativa para os Rays chegarem ao Brasil foi em 2008 e 2009, e só no começo desse ano vocês fizeram projetos mais fortes. Por que demorou tanto para essas novas ações?

A gente precisava se preparar como equipe. Demorou todo esse tempo porque a gente ficou esperando a parceria de Marília, que não aconteceu. Aí, nossa equipe também precisava se estruturar, entender um pouco melhor sobre o mercado brasileiro, como funcionam as coisas por aqui. Depois, chegamos à conclusão de  que a gente estava pronto para as primeiras ações.

Após a desistência de Marília vocês pensaram em deixar o Brasil?

Não vou mentir, mas passou pela cabeça do pessoal desistir sim. Não pelo que País oferece, mas pela situação política e econômica. Nós estamos em uma situação que os americanos não estão acostumados a se deparar, que é corrupção, pessoas falando coisas, assinam documentos e não cumprem aquilo que está assinado. Então foi isso que deixou um pouco os americanos chateados, com o pé atrás. Em um primeiro momento, pensaram em desistir, mas ainda foi mais forte a possibilidade de poder produzir bons atletas aqui. Isso os fez ficar. 

Assim que Marília saiu do negócio, outras cidades se candidataram, como Avanhadava e Araçatuba. Vocês continuam em contato com elas?

Na verdade elas não se ofereceram para ser base do Tampa. Nós fomos até essas cidades para serem parceiras do projeto. A gente acredita que aqui no interior do Estado a gente tem condições de desenvolver o beisebol de uma maneira um pouco mais rápida do que na capital, pelas facilidades que o interior apresenta. Hoje, no interior você tem muito ócio das crianças e adolescentes, existe uma carência muito grande do que fazer após as aulas. E, por exemplo, no interior você consegue fazer um menino ir para o campo de bicicleta, coisa que é impossível em São Paulo. A gente veio com projeto em parceira com a Little League (programa internacional para ensinar beisebol para crianças) para implantar a Little League nessas cidades. Hoje, temos nas escolas de Penápolis e Avanhadava o beisebol como parte da grade curricular. Ou seja, ele não é mais uma modalidade experimental, já faz parte da grade da educação. A nossa ideia é levar o esporte até as crianças, e nós entendemos que todas as crianças estão na escola. Então, tem de levar o esporte para a escola.  

Quando vocês pretendem trazer essa iniciativa da Little League nas escolas das capitais, como São Paulo?

Já estamos começando. As proporções nas capitais são muito maiores. Envolve um movimento maior. Mas a gente já começou e acredito que o caminho seja as instituições privadas, até pelo fácil acesso. E, como um segundo passo, tentaremos conversar com a secretaria de educação.

E se em uma escola surgir uma criança muito boa, vocês têm o feedback do professor e da instituição?

Sim, temos. A gente fez um curso nessas cidades no interior e capacitou 70 profissionais de educação física com diploma, em um curso de 36 horas. Hoje, desses professores capacitados, tivemos até professor que defendeu um TCC de mestrado voltando ao beisebol. E os próprios professores têm dado um feedback bacana no sentido de que as crianças gostam muito do beisebol, a ponto de o professor reclamar que agora a molecada não quer mais futebol, nem outra coisa, só quer beisebol. (Risos) Isso prova que o brasileiro, se a gente der a oportunidade, com certeza vai abraçar. A molecada gosta, só precisa ter acesso.

E quando fica pronto o CT em Garça, você sabe?

Eu acredito que até o final desse ano a gente esteja com tudo pronto.  

Quantos atletas vocês vão receber nesse CT?

A projeção é ter pelo menos 40 atletas.  

Você sabe quanto tempo vai demorar para enviar jogadores aos Estados Unidos?  

Hoje na base do Rays já temos dois atletas brasileiros, que já fazem parte do trabalho que fazemos aqui no Brasil. A gente assinou com um garoto no ano passado, e ele vai jogar o primeiro Summer League na Venezuela esse ano. Encontramos esse garoto com 12 anos de idade e fizemos um trabalho nesses quatro anos. Tem o Léo Reginatto, que já está um pouco mais avançado. Houve outros atletas brasileiros que também passaram pelas categorias de base, mas não deram certo.  

O que o pessoal das ligas menores e os executivos dos Rays estão esperando do trabalho no Brasil?  

A expectativa é grande, porque, se você analisar, é um projeto bem audacioso investir num País onde o principal esporte não é o baseball. E a empresa tem dado todo o apoio. Não é uma ideia isolada dentro do time. Desde o dono, todos acreditam nesse projeto. Não é um departamento que comprou a ideia e trouxe aqui.  

Vocês têm uma estimativa de data de quando um atleta estará no Triple-A ou na Major League?  

Acredito que o Reginatto esse ano deva chegar lá. Vai depender muito de como ele vai estar no Spring Training. Acredito que ele já deve começar Double-A. Ele tem grandes possibilidades de chegar a Triple-A esse ano.  

O Brasil foi 'colonizado' pelo Japão no beisebol. Você vê essa influência no estilo de jogar?

Existe uma filosofia diferente de jogo. O jogo é o mesmo, acho que difere no estilo de jogo, como um brasileiro que irá se adequar ao estilo de jogo europeu, por exemplo.

O Tampa Bay é consultado por outras franquias sobre o trabalho de vocês?

Eu digo que lá nos Estados Unidos funciona assim: todo o mercado está de olho na gente, seja ele para o sucesso, seja para o fracasso. Se nós tivermos êxito no trabalho que estamos desenvolvendo, a probabilidade de outras franquias chegarem ao Brasil é grande.  Como se a gente fracassar, te garanto que pelo menos nos próximos 20, 30 anos ninguém vai aparecer por aqui. 

O que a MLB pensa disso? Ela tem o mesmo pensamento?

A MLB tem um trabalho de desenvolvimento no mundo inteiro, tanto que aqui, na Europa e na África, ela tem esse trabalho do MLB Elite Camp, que também tem a função de descobrir talentos e levar para os times. A MLB não trabalha para um time, trabalha para os 30 clubes, para o beisebol. Eu acho que uma das razões de ela ter vindo para o Brasil foi o Tampa ter vindo para o Brasil, porque eles vieram depois que a gente decidiu vir para cá. Então eu acho que é um trabalho em conjunto.  

Vocês pretendem fazer uma nova parceira com outro time?

Para ser sincero, a minha ideia é levar a bandeira dos Rays para onde tiver a oportunidade.

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