O boleiro e o vil metal

Amigos, o futebol mantém relação conflituosa com o dinheiro. A começar pelo ângulo do torcedor. O apaixonado por seu time deseja que o jogador, ao vestir o manto sagrado do clube, sinta o mesmo que ele. Sabe, está careca de saber, que o jogador é profissional. Joga por contrato, recebe salário, prêmios, direitos de imagem, o que for, em troca de sua atividade. E, se encontra pouso melhor, faz como qualquer trabalhador de um ramo qualquer de atividade - muda de emprego.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2015 | 02h03

O jogador, por sua vez, ajuda a manter a fantasia. É difícil, mesmo em tempos tão mercantilistas, um boleiro ser apresentado e declarar que escolheu o time "x" apenas porque está sendo regiamente pago. Assim, usa a imaginação para criar uma suposta identificação com a nova equipe, e os mais cínicos até declaram que torciam para o novo clube "desde pequenininhos". Invariavelmente, beijam o escudo. De modo figurado ou literal.

O conteúdo emocional do futebol não permite que ele seja reduzido a mera transação comercial, a um simples vínculo contratual entre dois elementos livres, segundo reza a norma capitalista - aquele que emprega e aquele que vende seu trabalho ao patrão. É preciso mais. É preciso afirmar que o atleta pode até ganhar muito, mas joga... por amor.

Suponho que ninguém se escandalizaria se os operários de uma fábrica qualquer entrassem na justiça contra os patrões por não receberem salários durante três meses. Acho que todos apoiariam os empregados lesados. No entanto, alguns jogadores que foram bater às portas da Justiça do Trabalho contra o Santos tiveram suas residências pichadas. Um deles, Aranha, até foi alvo de insultos racistas. Parecidos com aqueles xingamentos recebidos tempos atrás e que valeram ao goleiro a solidariedade nacional.

Esse é o paradoxo do futebol. Sabemos que o dinheiro o movimenta. É o dinheiro que faz a diferença entre o Real Madrid e o Íbis. Temos consciência de que o futebol brasileiro encontra-se na pindaíba atual justamente por falta de grana em escala global. Mas não conseguimos nos convencer de que nossos ídolos joguem apenas movidos pelo vil metal.

Em sua coluna de ontem, Antero Greco lembrou o caso comovente de Dalmo, lateral-esquerdo do grande Santos bicampeão do mundo. Aos 82 anos, Dalmo está doente. Sofre do Mal de Alzheimer e sua filha, que dele cuida, necessita de dinheiro para o tratamento. Qual a solução temporária? Vender a medalha de campeão do mundo interclubes de 1963, que ele mesmo ajudou a conquistar, jogando muita bola, e marcando, de pênalti, o gol da vitória do Santos por 1 a 0 no terceiro jogo com o Milan.

Quando li a notícia sobre Dalmo, me lembrei imediatamente do personagem fictício Paulinho Majestade, do filme Boleiros, dirigido pelo companheiro de crônica do Estadão, o grande cineasta Ugo Giorgetti. Interpretado por Aldo Bueno, Majestade, antigo craque do Santos sumido no anonimato, volta à cena ao colocar os seus troféus à venda para sobreviver. O personagem é baseado num craque real, o zagueiro Joel Camargo, em seu tempo considerado por João Saldanha o melhor quarto-zagueiro do mundo.

Por isso fico aliviado quando vejo veteranos queridos gozando a aposentadoria com saúde e dignidade financeira. Ninguém precisa ficar rico para ser feliz, mas segurança econômica é fundamental para uma vida equilibrada, quem discordaria?

Seria mesmo melhor adotarmos uma atitude mais lúcida em relação aos jogadores e seus interesses econômicos. São trabalhadores como qualquer um de nós - só que muitíssimo mais bem pagos. Ainda assim, trabalhadores. Agora, se formos reduzir o vínculo entre o jogador e um clube ao mero contrato financeiro, tenho impressão de que o futebol perderia muito da sua graça. Ainda precisamos da mística do amor à camisa, mesmo que mentirosa.

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