O Brasil ainda caminha a passos lentos, dentro e fora do campo

Obras das Arenas e, principalmente, de infraestrutura, não deslancham; atrasos preocupam

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

A presidente Dilma Rousseff vai chamar nos próximos dias os governadores dos Estados e os prefeitos de cidades envolvidas com a Copa do Mundo para uma "conversinha"". Vai ouvir de quase todos palavras tranquilizadoras sobre o andamento das obras. Não acreditará, pois terá em mãos relatório encomendado ao ministro do Esporte, Orlando Silva, que traz observações preocupantes. Vai cobrar, ou melhor, exigir, balanços trimestrais sobre o que está sendo feito.

Dilma tem motivos para estar apreensiva. Na prática, pouco foi feito até agora daquilo que é necessário - ou que foi prometido -, seja no quesito estádios ou em infraestrutura. Falar em atrasos, porém, causa reações via de regra irritadas, quando não indignadas. "Está tudo dentro do cronograma"", é a frase que mais se escuta quando se questiona uma autoridade. Resposta baseada em projetos e processos de licitação em curso. Mas a realidade desmente o discurso.

As arenas são exemplo disso. A maioria das que serão reformadas ainda não superou a etapa da demolição; as que vão ser totalmente erguidas estão em fase de terraplenagem ou de fundações - isso quando nada foi feito até agora, como em São Paulo e em Natal. E há casos de estádios cujos processos de licitação são alvo de órgãos como Ministério Público e Tribunal de Contas.

Apesar disso, até a Fifa já considera que os estádios caminham bem. Pelo menos foi isso que o presidente da entidade, Joseph Blatter, disse na quarta-feira. Talvez o cartola tenha percebido que as arenas são o menor dos problemas.

Mas, na sua política do morde e assopra (há duas semanas, criticara veementemente os atrasos do País), Blatter saiu da rota. Baseado em relatório que diz ter recebido recentemente, elogiou até as obras nos aeroportos. Ou ele não entendeu o que leu ou os autores do relatório foram, digamos, fantasiosos. Isso porque, no mesmo dia em que Blatter colocou a situação dos aeroportos brasileiros em céu de brigadeiro, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) causou turbulência daquelas capazes de derrubar avião: divulgou estudo dando conta que, dos 13 aeroportos que deveriam ser modernizados, 9 não ficarão prontos até 2014. O governo reagiu: garantiu que as obras sairão. Para isso, pretende alterar a regra de licitações, a ponto de premiar construtoras que cumpram os prazos.

O Estado fez levantamento de como andam as obras, baseado no que foi prometido e não no que já existe. Estádios e hotéis (estes porque os projetos estão ligados à iniciativa privada) preocupam menos do que aeroportos e projetos de mobilidade urbana. Mas o sinal para o Brasil está amarelo, quase entrando no vermelho.

 

São Paulo (SP)      

São Paulo não consegue resolver seu maior problema para a Copa: o estádio. A Fifa já decidiu fazer a abertura na principal e mais bem estruturada cidade do País e se irrita com a indefinição em relação ao início das obras da Arena do Corinthians, agora prometido para a segunda quinzena de maio. Já se sabe que o local não receberá a Copa das Confederações, em 2013.

Ainda é preciso, porém, o Corinthians se acertar com o Ministério Público, Petrobrás e obter licenças da Prefeitura. Falta também a definição financeira em relação ao projeto - quem vai bancar e de onde virá o dinheiro. Todas as partes garantem que os detalhes estão resolvidos. Mas o sinal verde para o início das obras não é dado oficialmente.

Outro problema é a reforma dos aeroportos. Em Cumbica, o melhor aeroporto d0 Brasil, mas já saturado, a Infraero fala em investir R$ 1,3 bilhão, mas até agora só há intervenções menores. Em Viracopos, tudo está na fase dos projetos. Nada ficará pronto para a Copa.

As obras de mobilidade urbana caminham a passos de tartaruga. E das quatro linhas de metrô previstas inicialmente, só uma estará pronta a tempo. Menos mal que os 45 mil leitos disponíveis e os projetos de novos empreendimentos hoteleiros não deixarão nenhum visitante ao desabrigo. / A.L.

 

Brasília

       

Brasília decidiu: receba ou não abertura da Copa, o Estádio Nacional Mané Garrincha terá capacidade para 70 mil pessoas. As obras do estádio estão entre as mais adiantadas, mas há complicações. Recentemente, o Tribunal de Contas do Distrito Federal pediu a paralisação dos trabalhos, sob o argumento de que não há garantias orçamentárias para sua conclusão. Outro problema é a indefinição sobre a principal obra urbana, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que ligará o aeroporto à Asa Norte. O trabalho está suspenso, pois o MP concluiu haver irregularidade na licitação e falta de estudo de impacto ambiental.

O aeroporto Juscelino Kubitschek espera pelo início das obras de expansão. Não há prazo para isso. E o setor hoteleiro precisa de novos empreendimentos. Brasília tem 25 mil leitos, quantia insuficiente para uma Copa, e aposta que apareçam interessados em construir novos hotéis.              

 

 

Salvador      

     

Salvador começa a se enrolar. O Comitê Organizador sustenta que a reconstrução da Fonte Nova - em fase de instalação das estacas de sustentação e construção de pilares - segue o cronograma. Mas o Crea fez vistoria esta semana e não concorda. O órgão também vê atraso no metrô. As obras, aliás, começaram faz mais de 10 anos e já enfrentaram suspeita de superfaturamento. Trilhos e estações agora estão em fase de acabamento, os trens em teste, mas não há previsão de inauguração. A obra mais adiantada é a Via Expressa, que ligará a rodovia BR-234 ao porto.

O aeroporto ainda espera pelo início da reforma, o que só deverá ocorrer em fevereiro de 2012. O terminal de passageiros vai ser ampliado, assim como o pátio, e nova torre de controle será construída. O setor de hospedagem tem 19 hotéis em construção na cidade e no entorno, o que elevará para 60 mil o número de leitos. / TIAGO DÉCIMO

 

 

Recife  

 

 

Recife acaba de receber o combustível necessário para tocar a Arena Pernambuco - que fica em São Lourenço da Mata, região metropolitana. O BNDES liberou R$ 280 milhões ao consórcio responsável pela construção, atualmente em fase de terraplenagem e execução das fundações.

A arena é uma das candidatas a se tornar "elefante branco"" após o Mundial, mas pelo menos no item aeroporto Recife deve cumprir os prazos. Até porque a única ação prevista nos Guararapes é a construção de nova torre. No entanto, o edital de licitação só deve ser lançado em junho.

Os projetos para melhorar o trânsito, por outro lado, nem sequer foram concluídos. Contemplam a construção de avenidas e implantação de corredores de ônibus. Pelo menos a rede hoteleira deve atender às expectativas: 18 novos hotéis em construção ajudarão a atingir a meta de 41 mil leitos. / ANGELA LACERDA

 

 

Porto Alegre

   

     

Porto Alegre tem, no momento, certa tranquilidade em relação ao cronograma estabelecido para a Copa do Mundo. O Estádio Beira-Rio mantém o ritmo das reformas, agora na fase da reconstrução do anel inferior como a face mais visível. Mas o Internacional não tem definida a empresa parceira que ajudará a tocar as obras. Ainda assim, garante que não haverá atrasos.

O problema da capital gaúcha são os projetos de mobilidade urbana: dos dez idealizados, nove estão atrasados e alguns nem projeto definido têm. Apenas a duplicação da avenida que dá acesso ao Beira-Rio está sendo realizada.

O aeroporto Salgado Filho foi incluído entre aqueles cujas reformas não ficarão prontos a tempo. As obras de ampliação do pátio de manobras e do terminal de passageiros não começaram. Já existem cinco hotéis em construção na cidade, além de três em projeto. / ELDER OGLIARI            

 

 

 Natal                

Natal tem um problema sério: as obras da Arena das Dunas ainda não começaram. O prazo estabelecido é julho, isso se até lá todos os questionamentos ao processo de licitação estiverem resolvidos. O governo potiguar, porém, não admite o atraso, evocando um calendário que teria sido feito entre a Fifa e a governadora Rosalba Ciarlini. O aeroporto também preocupa. O de São Gonçalo do Amarante está sendo construído, mas estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) conclui que não ficará pronto a tempo. O atual será ampliado, a Infraero já fez licitação, mas as obras não começaram.

Em relação à mobilidade urbana, algumas obras estão sendo tocadas e outras tiveram os projetos recentemente apresentados ao Ministério das Cidades. Seis novos hotéis deverão ser instalados na cidade até a Copa, com recursos totalmente privados. / ANNA RUTH DANTAS

 

              

Rio          

 

O Rio vive uma situação ambígua em relação ao Maracanã, estádio da final da Copa de 2014, entre outros jogos. A reforma está caminhando - nesta semana, foi concluída a demolição do anel inferior. A mudança na cobertura (a atual, comprometida, vai ser substituída por uma com lona tensionada) foi aprovada pelo Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Nacional, do Rio. Mas o projeto executivo, por meio do qual é feito o detalhamento da reforma, não fica pronto.

O projeto deveria ter ser entregue terça-feira ao TCU (Tribunal de Contas da União), mas o prazo foi adiado para 17 de maio. Algo desagradável para uma obra que teve orçamento inicial de R$ 705 milhões, mas os cálculos atualizados já passam de R$ 1 bilhão.

Pelo menos o Rio tem boa situação em relação às obras em aeroportos. A reforma no Galeão está sendo feita e é uma das poucas que deverão ficar prontas para a Copa, segundo o Ipea.

A Transcarioca, corredor que ligará Campo Grande à Barra da Tijuca, já teve as obras iniciadas, assim como o corredor Aeroporto/Barra, a Transoeste. A linha 4 do Metrô, também em direção à Barra, já saiu do papel. Em relação à rede hoteleira, o Rio se diz tranquilo: a cidade tem hoje 27 mil leitos e, com 19 hotéis em construção, acredita que não terá problemas. / BRUNO LOUSADA

 

Belo Horizonte  

           

Belo Horizonte tem no Mineirão um dos estádios cujas obras para 2014 estão mais adiantadas. O anel inferior está sendo finalizado, assim como a preparação da área para receber o gramado. Mas não há definição sobre a empresa que fiscalizará a obra, pois o processo de licitação foi interrompido por determinação judicial. As obras no aeroporto de Confins enfrentam problemas. O Ministério Público Federal (MPF) foi à Justiça pedir a paralisação do processo de licitação, por falta de estudo de impacto ambiental.

Os projetos para melhorar o trânsito caminham lentamente. Das quatro rotas exclusivas para ônibus que foram planejadas, apenas uma está em obras. A capital de Minas Gerais tem deficiência, alta, de vagas de hospedagem. No momento há 2 hotéis de quatro estrelas e 6 de três estrelas em construção, além de outros 21 em fase de obtenção de licenças. / MARCELO PORTELA

           

Curitiba      

   

        

Curitiba promete entregar a Arena da Baixada em dezembro de 2012. O estádio do Atlético-PR não sofrerá grandes alterações em relação ao que já existe. Será construído um anel superior numa das laterais, estacionamento e área de imprensa vão ser ampliados e dois pilares que atrapalham a visão do torcedor, removidos. O projeto de reforma deve ficar pronto até o fim do mês e as obras têm previsão de início para julho.

A capital paranaense também diz não se preocupar com hotéis, pois considera o número de leitos (19 mil) suficientes e a intenção é integrá-los aos 22 mil de Foz do Iguaçu, destino turístico. E há hotéis em construção.

As boas notícias param por aí. A ampliação do aeroporto Afonso Pena corre risco de não sair do papel e as obras de mobilidade urbana não começaram. Mas os responsáveis garantem que serão feitas a tempo. / EVANDRO FADEL

 

 

Cuiabá

   

    

Cuiabá fez pouquíssima coisa até agora para o Mundial. A rigor, a terraplenagem para a construção da Arena do Pantanal - ainda não concluída. Já as duas intervenções a serem feitas no aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, não começaram. A obra na sala de desembarque parou depois que a empresa vencedora da licitação desistiu - nova licitação deve ocorrer - e a reforma e ampliação do terminal ainda está na fase de elaboração de projeto.

A indefinição também existe nas obras de mobilidade urbana. Não se sabe nem se será adotado o modelo BRT (Bus Rapid Transit) ou VLT (Veículos Leves sobre Trilhos). Sem contar que o governo enfrenta manifestações contra desapropriações para a execução das obras.

Em relação à rede hoteleira, alguns projetos da iniciativa privada serão retomados para aumentar a capacidade atual da região, de 18.300 para 22 mil leitos. / FÁTIMA LESSA              

Fortaleza          

Fortaleza caminha lentamente na preparação para a Copa. O estádio Castelão teve as obras internas iniciadas há menos de um mês, embora os trabalhos no entorno venham sendo realizados há meses. O governo garante que entregará a arena em dezembro de 2012. As obras de mobilidade urbana seguem ritmo razoável. O metrô tem os trilhos prontos, as estações em fase de acabamento e os trens, comprados. Há reformas em algumas avenidas e estradas; em outras o início do trabalho depende do governo federal - deve ocorrer apenas no segundo semestre.

Mas no aeroporto Pinto Martins, cuja meta ambiciosa é dobrar a capacidade atual de 4 milhões de passageiros/ano, nada saiu do papel até agora. O setor hoteleiro carece de 14 mil leitos. Mas resorts em construção na região metropolitana e a oferta de leitos em navios deverão suprir a necessidade. / CARMEN POMPEU        

Manaus      

Manaus tem como única obra para a Copa do Mundo em andamento a Arena Amazônia. A fase é inicial. Está sendo feita a colocação das fundações. Mas a construtora responsável garante que a execução está avançada, com base no cronograma aprovado. O governador Omar Aziz chega a dizer que é a mais adiantada de todas as arenas. Exagero.

O resto aguarda aprovação de projetos e, principalmente, verba. O aeroporto parece batalha perdida, já que dentro do próprio governo estadual se admite que a ampliação não ficará pronta para a Copa. O monotrilho, projeto principal na área de mobilidade urbana, ainda está em fase de licitação.

A rede hoteleira em Manaus e região deve atender à demanda. Aos 36 mil leitos atuais devem somar-se mais 16,8 mil até 2014. Há oito novos empreendimentos em fase de planejamento ou construção. / LIEGE ALBUQUERQUE

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