O Brasil na defesa

Boleiros

Luiz Zanin, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2014 | 00h00

O São Paulo segue impávido no caminho do bicampeonato. Já está no papo? Não, falta metade do percurso. Mas acontece que o tricolor paulista já vai dando uma cara, uma personalidade a este Brasileirão-2007. O perfil foi esboçado na vitória do meio da semana sobre o Botafogo, por 2 a 0, em pleno Maracanã. E confirmado no jogo contra o Atlético-PR, também por 2 a 0, no Morumbi. Há aí um estilo de jogar que vai se afirmando. E com o mais poderoso argumento do mundo do futebol - o resultado positivo. O São Paulo tem uma defesa muito eficiente e um ataque que, se não brilha, com segue fazer um golzinho ou dois lá na frente para garantir os três pontos. E assim, o líder segue, em ritmo de cruzeiro, com sete vitórias seguidas e abrindo distância em relação aos concorrentes.Em números: o São Paulo tem 24 gols pró, o que não chega a ser brilhante, com média de 1,26 por partida. Acontece que sofreu apenas sete e aí sim é notável: 0,37 por jogo. É a defesa, ou melhor, o sistema defensivo que vem fazendo a diferença.E é bom que seja assim? Nesse ponto entramos no pantanoso terreno dos juízos de valor. Pantanoso, porém inevitável, porque cada um tem na cabeça (e isso depende da sua formação), uma maneira de ver o futebol que lhe parece melhor do que as outras. Este colunista foi formado na doutrina do futebol ofensivo, criativo, o chamado futebol-arte, que muita gente acha tão ultrapassado como as calças boca-de-sino, aquele signo de elegância dos anos 70. Paciência. Uma coisa é o futebol idealizado que tenho na cabeça - aquele de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, ou Gérson, Tostão, Jairzinho, Pelé e Rivelino - e este que temos hoje e encontra no São Paulo seu representante maior.Avaliando de maneira realista as forças de que dispõe, Muricy monta um time extremamente eficaz e que, sem encantar ninguém (talvez nem mesmo a sua torcida), vai despontando como o favorito ao título de 2007.Gosto de ouvir o Muricy falar. A qualquer pergunta que saia um pouco do arroz-com-feijão, ele faz sinais de desagrado, como a dizer que frescura não é com ele. O futebol (destacando bem o ''''e'''', à maneira paulista) é coisa simples, o time tem de ser equilibrado e o negócio é ganhar. Muricy é um exemplo acabado de pragmatismo à brasileira. Bem diferente de Telê que, como todos, também queria vencer, mas tinha um sentido ético-estético do futebol. Alguma coisa que era do futebol e, ao mesmo tempo, ia além dele. Hoje isso é frescura, diria o Muricy.Outro dia entrevistei o historiador Hilário Franco Jr., que escreveu um livro maravilhoso sobre o futebol chamado A Dança dos Deuses. Nessa obra bastante completa, o professor Franco Jr. examina de que maneira o futebol se tornou um esporte privilegiado, capaz de expressar e se tornar metáfora da sociedade onde é jogado e apreciado pelo grande público. Me pergunto se esse pragmatismo são-paulino, se essa austera doutrina do possível adotada por Muricy, não seria a mais representativa deste momento do Brasil. Um país que vai caminhando, meio aos trancos e barrancos, mas parece ter perdido a dimensão da utopia, a inspiração. Deixou de sonhar com coisas belas e se contenta com a burocrática administração das coisas, diante de um mundo hostil.É uma maneira de vencer. Mas é triste.

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