Franck Robichon/EFE - 09/09/2010
Franck Robichon/EFE - 09/09/2010

O brilho das brasileiras no tatame é cada vez maior

Com a quebra de tabus, judô feminino deixa de ser segundo plano e já projeta o primeiro ouro olímpico

Amanda Romanelli, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2010 | 00h00

Foi na terra do judô que as meninas do Brasil celebraram a queda de mais um obstáculo rumo ao reconhecimento. Em 9 de setembro, a meio-pesado (-78 kg) Mayra Aguiar, de apenas 19 anos, ganhou a medalha de prata no Mundial de Tóquio - aquela havia sido a primeira vez que uma brasileira chegou à decisão do torneio. Foi o segundo tabu quebrado pelas mulheres em pouco mais de dois anos, considerando que a primeira medalha olímpica do Brasil na modalidade veio apenas em Pequim/2008, com o bronze de Ketleyn Quadros entre as leves (-57 kg).

Mas basta um olhar um pouco mais apurado para ver que, no Brasil, são as mulheres que têm dominado o tatame. Uma evolução, aliás, que ocorre de maneira acelerada desde Pequim. Após a Olimpíada, elas superam os homens em número de pódios nos Mundiais de todas as categorias. São 12, contra cinco dos rapazes. E, no lugar mais alto do pódio, garantiram supremacia: foram quatro ouros, com destaque para a piauiense Sarah Menezes, bicampeã mundial júnior - Rafaela Silva, em 2008, também foi campeã, tal como Flávia Gomes, no ano passado. A conta também pode aumentar, já que outra edição do Mundial Júnior será disputado, em outubro, no Marrocos.

"Desde o meu início como técnica, sempre me recusei a comparar o judô feminino com o masculino, principalmente porque havia um grau de investimento muito distinto", conta Rosicléia Campos, técnica da equipe adulta feminina desde 2005. "Mas, a partir de agora, com o investimento equilibrado, já admito que uma cobrança igual."

Rosicléia e suas atletas não têm dúvida de que o judô vive um momento histórico. Tanto que, para a Olimpíada de 2012, em Londres, já vislumbram o primeiro ouro. Surpreende, também, o período de evolução da equipe, do juvenil ao adulto. Até porque, para falar do início da virada, não é preciso voltar muito no tempo.

"Em 2006, fizemos um treinamento em Cuenca, no Equador, em condições horrorosas. E as meninas reclamavam: 'Por que os homens estão na Europa e nós, aqui?'" Era a primeira vez que a seleção feminina tinha um programa próprio de treinamento. Aquele período de 21 dias visava ao Campeonato Pan-Americano na Argentina, que valia a classificação para Pequim. A treinadora, então, colocou na mesa o argumento que dominava a modalidade. "Para tudo, a justificativa era a de que o feminino não trazia resultados. Disse que a mudança estava nas nossas mãos. Era preciso ganhar."

A mudança de mentalidade veio - e os resultados também começaram a aparecer. "Na Argentina, fizemos seis finais e encaramos Cuba, o bicho-papão, frente a frente. No Pan do Rio, em 2007, ganhamos sete medalhas. Em 2008, realizamos nosso grande sonho, que foi ganhar uma medalha olímpica", enumera Rosicléia. "Agora, estamos entre as melhores, junto com japonesas, chinesas, francesas e russas." E a equipe feminina ganhou voz ativa para definir quando, onde e como irá fazer sua preparação, com auxílio de uma equipe interdisciplinar.

Luta fora do tatame. Rosicléia, assim como Andrea Berti, técnica da seleção juvenil, celebram a atual fase com a experiência de quem viveu, na carne, os problemas do esporte. Ambas estiveram nos Jogos de Barcelona, em 1992, quando o judô feminino estreou como modalidade competitiva. "Era uma época em que ganhar seletivas não significava nada", lembra Andrea, que também disputou Atlanta/1996 e Sydney/2000. "Às vezes, a vaga era de uma, mas outra ia no lugar. Não havia apoio da Confederação. Era preciso batalhar dinheiro sozinha para viajar."

Responsável pelas mais jovens estrelas da modalidade, Andrea já conseguiu, no primeiro Mundial Juvenil, três medalhas: além do ouro de Flávia Gomes, o Brasil foi bronze com a meio-pesado Tainá Nery e a pesado Samantha Soares. "Antes, a medalha vinha na sorte, no talento pessoal", recorda a treinadora. "Agora, não. Há um trabalho para isso. Eu brinco que até dá uma invejinha."

Mas o que as técnicas mais comemoram é a continuidade do trabalho e quantidade de boas atletas produzidas nos últimos anos. "O judô é, cada vez mais, um grande jogo de xadrez. Mas nós temos muitas peças para mexer no tabuleiro", garante Rosicléia. "Nossa safra atual garante, pelo menos, mais três ciclos olímpicos."

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