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O burro

A torcida se levantava e o brado era lançado a plenos pulmões: Burro! Burro! Burro! Às vezes as opiniões se dividiam: se o "Burro" era por tirar quem não merecia sair, ou por fazer entrar quem não merecia entrar. Muitas vezes era pelas duas coisas. De qualquer modo o berro soava impiedoso. As câmeras, cruéis, fixavam durante um largo tempo o "burro" em pé, fingindo que não era com ele, ou simulando olímpico desprezo pela multidão.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 02h02

Sempre me perguntei o que sentia, de fato, por dentro, um treinador ao ser submetido a crítica tão unânime e devastadora. Bom, mas isso era no tempo em que treinadores não eram levados tão a sério no mundo do futebol. Falo do Brasil naturalmente. Eram práticos, ex-jogadores, ou funcionários dos clubes, que não sabiam de táticas e esquemas mais do que a maioria dos seus comandados.

Homens que conheciam os bastidores, o interior profundo dos vestiários e o sem número de malandragens que circulavam pelo mundo da bola. A função requeria mais esperteza do que conhecimento ou estudo, mais vivacidade para se antecipar aos truques do que visão nova ou original do jogo.

Havia, claro, exceções, mas eram poucas. Para sorte da maioria, no entanto, contavam com um material humano incrível à disposição. O grande time do Santos que encantou o Brasil e o mundo, com Pelé e companhia, tinha um técnico que jamais, em nenhuma das grandes conquistas e vitórias, sequer foi mencionado como autor de alguma ordem, ou mesmo sugestão, que tivesse mudado algum jogo.E por durante uns dez anos, creio, foi mantido no cargo sem qualquer contestação.

Nos outros grandes times, e mesmo na seleção brasileira, não era diferente. Não passaria pela cabeça de ninguém atribuir méritos de estrategista ao simpático Vicente Feola. No entanto, ele comandou a primeira vitória brasileira em copas do mundo.

A verdade é que contava com craques de verdade, com gente de enorme talento, que, inclusive, dava sugestão na escalação e tratava com ele de maneira altiva. O mesmo aconteceu com a grande seleção de 1970, quando Zagalo, recém-promovido à carreira de treinador, tratava de igual para igual com gente que, pouco antes tinha jogado com ele.

Corte brusco, como se faz no cinema, para os dias de hoje. Não há mais grandes craques e alguém tem que fazer a mágica da vitória. Quem? Justamente aquela pessoa que, de tempos em tempos, era publicamente chamada de "burro". Ele, o treinador, é responsável hoje pela vitória e pela derrota.

Vimos na última Copa. O principal responsável pelo vexame não foi a indigência técnica da equipe, o miserável futebol de cada um, mas Felipão. De uma hora para outra virou velho, ultrapassado, monoglota, reacionário, o diabo. Algumas dessas qualificações não eram de todo injustas, mas elas não apareciam quando havia Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Marcos, etc. Até hoje ele lambe suas feridas. Agora parece que vai acontecer o mesmo com o Gallo. Alexandre Gallo é a coisa mais parecida com um técnico moderno que conheço. Lógico, sério, disciplinado, até o corte de cabelo é impecável. Parece mais um personagem da série Mad Men do que técnico de futebol. Nada mais longe de Feola do que Gallo. Em aparência, porque no fundo os dois são apenas técnicos, que dependem dos jogadores. No entanto Gallo está sendo responsabilizado pelo fracasso, no recente Sul-Americano Sub 20, de uma seleção que ficou atrás de Argentina, Uruguai e Colômbia.

Os dirigentes da CBF, essa sim uma verdadeira enfermaria geriátrica, esperavam de Gallo apenas vitórias, pura e simplesmente. Não acreditavam nele como treinador. Novos tempos, modernidade, juventude, mudança de mentalidade que pudesse implantar a dita reforma da base, tudo isso era apenas um truque para, talvez, acalmar a imprensa e a opinião pública. Na verdade o que precisavam, como sempre, era um mágico. Foi a vez do Gallo.

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