O caráter nacional brasileiro

Ganso marcou um gol lindo contra o Santos. Recebeu a bola quase dentro da pequena área, de costas, matou, girou e colocou-a no ângulo. Golaço mesmo. Além do mais, jogou boa partida. Deu passes, esteve presente, melhorou o nível do espetáculo com sua lucidez. Vem jogando assim ultimamente. Além de ser o meia refinado que sempre (está bem, quase sempre) foi, agora parece mais dedicado. Marca e corre mais. Tem feito a diferença.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h03

Rogério Ceni ficou tão entusiasmado com estas últimas atuações do colega que declarou: Ganso, a continuar desse jeito, é jogador para o Real Madrid, para o Barcelona. É, ele não disse que, se prosseguir nesse caminho, Ganso é jogador para fazer história no São Paulo, clube que, afirmam os bem informados, acolherá Rogério como dirigente quando ele pendurar as luvas. Não. O ex-santista é jogador para o Barça, para o Real. Rogério não disse, mas pensou: se Ganso mantiver o nível, o São Paulo ficará pequeno para ele. Jogador bom não é para o Brasil.

Assim é e assim pensam todos. Os mais ingênuos achavam que o complexo de inferioridade brasileiro era coisa do passado. Uma síndrome contornável. Os realistas sabem que, mesmo nos períodos mais ufanistas, o complexo apenas adormece.

Está sempre prestes a acordar e sair ladrando pelas ruas. Depois dessa Copa, então, parece que se incorporou de vez àquilo que o grande psicólogo Dante Moreira Leite chamou de "caráter nacional brasileiro". Um traço definidor.

Traço que ficou claro depois dos jogos fatídicos da Copa. Daí a tentativa de alguns dos protagonistas colocarem distância entre eles e esses jogos. Luiz Felipe Scolari, depois da vitória do Grêmio sobre o Corinthians, disse que não queria mais falar dos 7 a 1. Que essa insistência se devia à falta de delicadeza dos jornalistas.

Outro que se rebelou foi Fred, cheio de brios depois de marcar dois gols na vitória do Fluminense sobre o Sport. Disse, para quem quisesse ouvir, que no Brasil precisa-se sempre de um bode expiatório e, no caso da Copa, ele, Fred, havia sido o eleito.

Tendo a dar razão aos dois. Ou melhor, aos três, incluindo nesse rol o Rogério Ceni. Qual a culpa de Fred ou Felipão? Bom, o centroavante não jogou nada na Copa. Não tem responsabilidade. Se um jogador vive má fase, cabe ao treinador poupá-lo. Quanto a Scolari, sua "culpa" foi ter errado na escalação diante de um adversário superior. Errou, mas quem não erra? Atire a primeira pedra quem nunca avaliou mal uma situação, como parece ter feito Scolari diante da Alemanha.

Li outro dia um ensaio brilhante de Nuno Ramos na revista Piauí. Ramos sugere que o mito do "verdadeiro futebol brasileiro" está acabando com o futebol no Brasil. O tal "verdadeiro futebol" seria aquele jogado na época de ouro, com Pelé, Garrincha, Didi, Gérson, Tostão, etc. Resumo mal e rapidamente, mas a ideia central do texto me parece a de que o fascínio por esse mito pode inibir a evolução do futebol brasileiro ao padrão de jogo mais moderno. Impede, em especial, que sejamos realistas. Cabia, naquele jogo em particular, atentar para o fato de que o adversário era muito superior e tomar as cautelas defensivas adequadas. Mas o "mito brasileiro" mandava avançar para cima deles. Montada para atacar, a seleção tomou sete. Fora o baile.

Aprendemos alguma coisa? Nada. Felipão e Fred querem apenas distância em relação àquele fato. Certo. Gostamos de construir biografias apenas com nosso perfil positivo. Somos heróis em tudo, dizia o poeta. É compreensível, mas a vida não é assim.

Poderiam tirar proveito da dura lição, mas apenas querem que seja reprimida e faça parte do nosso inconsciente futebolístico, como uma espécie de sonho mau. Já o realismo passivo de Rogério Ceni é parte integrante do mesmo impasse. Não valemos grande coisa: quando alguém pode fazer a diferença, o país torna-se pequeno para ele.

Entre o desejo de esquecimento de uns e o conformismo de outros, estamos encrencados e encalacrados. Quem terá a lucidez de nos tirar dessa paralisia mental?

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