O carnaval de 1980

No dia 17 de fevereiro de 1980, domingo de carnaval, futebol e folia se misturaram dramaticamente no desfile da Mangueira. No meio da escola, perdido entre música, dança e carros alegóricos, vinha um pequeno veículo na traseira aberta do qual um homem se sentava, olhando a multidão com expressão ausente como se estivesse vagamente em outro lugar. De vez em quando levantava uma das mãos, talvez ouvindo seu nome gritado pelos assistentes. Mas era como se o som chegasse a ele de uma distância infinita, quase um eco.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h03

Num dado momento levanta a mão exausta e parece enxugar o suor do rosto. Mas sem mudar nada da expressão, sem que qualquer sintoma de vida pudesse ser percebido naquele rosto petrificado. As pernas pendiam inertes da beirada do veiculo. As pernas famosas, as pernas tortas que provavelmente tinham levado ao delírio a maioria das pessoas que naquele momento se aglomeravam nas arquibancadas.

O homem sentado na beirada do veículo era Garrincha. Ou o que restava dele. Por uma dessas contradições de que tanto se vale o cinema ou a literatura, alegria e imensa tristeza se embaralhavam no mesmo momento de celebração. O resultado era devastador. O que deveria ter sido uma homenagem da Mangueira a um autentico ídolo popular, um folião dos gramados, cuja coreografia diante dos zagueiros nada ficava a dever à dos mais talentosos passistas que desfilavam ao seu redor, tinha acabado por ser uma demonstração pública de seu estado e de sua decadência.

Naquele domingo de 1980 Garrincha foi exibido sem que nenhum truque, nenhum artifício de câmera pudesse esconder seu aspecto, sua aparência de robô distante, como se parte dele já não estivesse mais na terra. No YouTube pode ser vista essa imagem melancólica.

Do desfile da Mangueira de 1980 há uma montagem de uns dez minutos mais ou menos. Garrincha aparece por uns dez segundos. Temendo talvez pelo efeito que sua figura pudesse causar no espectador, o editor das imagens teve o cuidado de eliminá-lo o máximo possível. E ainda acrescentou sobre sua imagem um rápido, fugaz letreiro, como a esclarecer quem não acreditasse no que estava vendo: "GARRINCHA".

Ruy Castro, no seu belo livro "Estrela solitária", faz uma magnífica descrição desse episódio, do qual cito uma parte.

"Queriam pô-lo a salvo num táxi. Joelle ouviu quando Garrincha, com dificuldade perguntou - O pessoal gostou? Estava bom? A escola é fantástica - Não tinha consciência do espetáculo triste que havia proporcionado. Um dos diretores quis saber se estava sentindo-se bem. Garrincha respondeu como se alguém falasse por ele: Tá tudo bem - e depois de uma pausa - Tá tudo ótimo." Em outra entrevista patética quase do mesmo período eu já o tinha visto repetir a mesma coisa: "Tá tudo bem, tá tudo ótimo".

Era sua maneira de manter alguma dignidade e não despertar piedade.

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