O choro do coração valente

Washington anuncia aposentadoria um ano antes do previsto para se ''dedicar mais à família'', e é homenageado pelo Flu

Bruno Lousada e Leonardo Maia, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2011 | 00h00

Ao chegar para a coletiva ontem à tarde, os olhos cheios de lágrima do atacante Washington já davam a certeza de que aquela entrevista seria a última como jogador de futebol. O anúncio de sua aposentadoria, aos 35 anos, veio logo em seguida, carregado de emoção e com uma cena marcante: ao ver o pai chorando como criança, as filhas Ana Carolina, de 8 anos, e Catarina, 3, correram para abraçá-lo.

Embora a diretoria do Fluminense tenha confirmado que Washington apresentou quadro de hiperglicemia (aumento do nível de glicose no sangue) nos últimos dias, o atacante disse que a decisão de parar nada tem a ver com a sua saúde - em 2003, ele teve problema cardíaco e é diabético.

O jogador contou que, há um mês, submeteu-se a exames com seu cardiologista e amigo Constantino Constantini e soube que estava liberado para atuar. "Claro que tenho os problemas que devem ser administrados. A decisão da parada foi nossa", disse ele, que conversou com médicos, familiares e os dirigentes tricolores antes de comunicar ao grande público que está saindo de cena.

"Não seria um ano que faria a diferença na minha vida. Tenho outros projetos para o futuro. Tenho de respeitar. Já estou chegando aos 36 anos e, de repente, não vale a pena o esforço. Vou curtir a vida e criar minhas filhas", destacou, em coletiva concedida num resort em Mangaratiba, no litoral sul do Estado, onde o Fluminense faz a pré-temporada.

Na verdade, Washington decidiu antecipar a aposentadoria prevista para o fim deste ano. "Estava me preparando para jogar mais este ano, mas vou parar. É um momento difícil demais, é uma coisa que mexe com a gente, mas um dia ia parar. Um dia a profissão acaba e é importante ter hombridade e humildade para saber que nada vai apagar o que dei ao futebol e o que o futebol deu para mim."

Na hora do adeus aos gramados, a família do jogador fez questão de estar junta. A irmã, o pai e a sobrinha viajaram de Aracaju para o Rio, a fim de dar uma força ao "Coração Valente" e não esconderam a emoção. A mulher do atacante, Andréia, também acompanhou a entrevista.

Washington pretende seguir no futebol, talvez como dirigente ou empresário, e vai se dedicar aos estudos e ficar mais próximo da família nos próximos meses. Ele aceitou o convite da diretoria para ser o embaixador do time na Taça Libertadores da América deste ano e manifestou vontade de ter um jogo de despedida.

"Claro que gostaria de me apresentar novamente para a torcida, fazer uma grande despedida, mas depende do Fluminense. Vamos amadurecer a ideia. Não gostaria de sair sem ao menos dar um tchau", disse o atacante, maior artilheiro de uma edição do Brasileirão - fez 34 gols em 2004 pelo Atlético Paranaense.

Alguns jogadores do elenco, como o zagueiro Leandro Euzébio, o atacante Tartá e o goleiro Ricardo Berna, "invadiram" o local da coletiva para abraçar o companheiro. "Sei que é até difícil olhar para eles. São amigos, companheiros, e não vou aguentar. Vou chorar muito. Sei que cada um tem uma palavra de conforto, de força, e só vou ter boas lembranças deles".

Do Fluminense, ele guarda muito carinho. Da torcida, então, nem se fala. A conquista do título brasileiro de 2010 o atacante jamais vai esquecer. Seu maior orgulho é ter servido de exemplo de superação para muitas pessoas. "Muitos me mandam mensagem e dizem que ajudei-os a superar seus problemas. Esse é o maior legado que levo", afirmou, emocionado.

CARREIRA VITORIOSA

10

clubes defendeu o atacante Washington desde 1993, quando iniciou no profissionalismo

34

gols marcou o atacante em 2004, pelo Atlético-PR, maior marca já atingida por um jogador em uma só edição de Brasileiro

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