O COB é Nuzman

Não dá para separar entidade e o cartola detido, como pede nota da Comissão de Atletas

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 04h00

A detenção de Carlos Arthur Nuzman, no meio da semana, foi furacão a desabar sobre o esporte nacional. Na onda de repercussões a respeito do destino do cartola, um fato chamou a atenção, destacado em sagaz manchete aqui no Estado. Em nota oficial, a Comissão de Atletas, espécie de ponte entre a rapaziada que compete e o Comitê Olímpico Brasileiro, avisa que apoia as investigações, mas pede para que se separe a imagem da instituição da do presidente.

Os moços que assinaram o documento talvez tenham sido tomados por tremenda distração, pois só assim se pode entender sugestão descabida. A verdade ofuscante, para quem é do meio e para leigos, mostra que o COB é Nuzman, e vice-versa. E faz tempo.

Não há como dissociar entidade do personagem que a dirige há 22 anos. Mais de duas décadas de poder, com direito a mandar e desmandar como bem entender, com reeleições seguidas – por aclamação. Sem contestação. Não podem se sair com essa observação asséptica. Ou são ingênuos, e ainda não perceberam o terreno onde pisam, ou pensam que os outros o sejam.

Tampouco se pode imaginar que Nuzman tenha conquistado seguidamente o cargo do nada, por obra divina, por inspiração do Espírito Santo. Está (esteve?) à frente do COB por contar com respaldo do colégio eleitoral formado pelas confederações. Ou seja, quem lhe dá sustentação política, quem lhe concedeu aval para ocupar posto tão relevante, tem muita responsabilidade no que acontece agora.

Não venham com declarações de torpor, surpresa, indignação. Estas soarão como oportunistas e falso moralismo, ou tentativa de pular de um barco que abrange grande tripulação; terão a validade de nota de 3 reais. Quem referendou Nuzman no alto do pódio da cartolagem tem de se explicar – em alguns casos, para os investigadores.

A Comissão de Atletas, ainda na carta aberta, preocupa-se com o risco de ser manchada a memória do desempenho dos esportistas brasileiros nos Jogos da Rio-2016. E conclama a que se realce o legado para as crianças, como prova de que o esporte “sempre será um dos melhores caminhos para desenvolvimento humano.” Sim, não para enriquecimento de quem o dirige...

Onde está a herança entrevista pelos signatários? Nas arenas abandonadas, em deterioração, pouco mais de um ano após a festa? Nas contas que não fecham? Nas modalidades que perderam patrocínio assim que passou a obsessão por busca de medalhas? Na precariedade das atividades no dia a dia?

Quantas quadras foram construídas nos anos que precederam a Olimpíada, para fomentar o esporte no Brasil? E piscinas? E pistas de atletismo? Ou, simplesmente, material para tênis de mesa? Onde estão centros de preparação e excelência espalhados pelo País para servirem de viveiros de talentos? Cadê febre de competições em escolas, faculdades, universidades? Onde o estímulo para os clubes investirem em atividades poliesportivas?

O legado virou delegado... de polícia, que vasculha acordos pouco transparentes, desvios de verbas, patrimônios pessoais tremendamente inflados. E não só de Nuzman. Há colaboradores na mira (caso de Leonardo Gryner) e o leque tende a abrir-se, com possibilidade de atingir políticos e outros dirigentes.

O momento é de atletas botarem a boca no trombone, como há muito faz Joanna Maranhão, voz isolada e desdenhada. Oportunidade para pressionarem mudanças em federações e confederações fossilizadas e fechadas com Nuzman, para exigirem clareza nos patrocínios. A vez de lutarem por condições dignas.

Daí, sim, terá sido útil esse vendaval. Caso contrário, não adianta Nuzman ser preso e virar carta fora do baralho. Será só um a menos... mas o baralho viciado continuará.

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