O começo e o fim

Faz pouco tempo Muricy Ramalho, num momento de descontração em conversa com um jornalista, declarou que tinha recentemente visto Dodô numa entrevista e admirou-se dos cabelos brancos do antigo centroavante: "E ele foi meu jogador! Acho que tô ficando velho."

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h04

Reproduzo as palavras de memória, mas o sentido é exato. Percebemos nossas modificações sempre através da observação de terceiros. O espelho mente, mas os amigos não. Estão diante de nós indefesos, com suas marcas que são também as nossas, e é isso que nos choca. Bem, tudo isso tem pouco a ver com o meu assunto. O que quero dizer é que, subitamente, passou pela cabeça de Muricy como o tempo passou, como sua própria carreira toma um rumo de, digamos, incertezas. Não que esteja a ponto de encerrá-la ou que tenha perdido qualidade. Mas surgiu-lhe a constatação inexorável: "Acho que tô ficando velho." E dessa observação me surgiu uma dúvida: todos nós sabemos como se sente um jogador ao pressentir que sua carreira está terminando, mas a mim pelo menos nunca ocorreu imaginar como se sente um treinador ao passar pelo mesmo momento.

Não se fala nisso, ninguém dá muita importância ao treinador que se retira. Não há jogos de despedida nem celebrações. Em pouco tempo são quase esquecidos. Quantos corintianos lembram que Oswaldo Brandão teve papel tão importante quanto Basílio no título de 1977?

Acho que a despedida de um treinador deveria chamar muito mais a atenção. Muitas vezes foram jogadores, às vezes grandes. Quando param de jogar como que morrem. Mas alguns, ao se transformarem em treinadores, renascem à beira do campo, sentindo como antigamente a pressão e a eletricidade de um jogo, convivendo, embora de outra maneira, com a bola da qual foram íntimos. É um modo de não abandonar a vida que sempre tiveram.

Esses, quando se retiram também da carreira de treinador, é como se morressem duas vezes. Não há mais nada diante deles, e a bola, os jogadores, o estádio e as partidas serão em pouco tempo lembranças que se tornarão cada vez mais vagas.

Algo me diz que essa segunda despedida é ainda mais dolorida do que a primeira. Há também os treinadores que nunca jogaram, mas, como os que jogaram, não amaram menos o futebol. Ser treinador sem ter nunca jogado poupa do primeiro encerramento, com todos os traumas que traz. Mas apenas adia o que um dia vai chegar. Quem está preparado para sair de cena? Alguns disfarçam bastante bem. Estive recentemente com um desses grandes jogadores, que se tornou depois um vitorioso treinador, e, hoje, com mais de 80 anos, retirou-se do futebol. Ele me pareceu bem, satisfeito, quase feliz. Falamos bastante sobre sua carreira de jogador, seus feitos, as equipes onde jogou, companheiros e adversários que tinham ficado em sua memória. Nas paredes da sala havia inúmeras fotografias do craque em várias equipes e na seleção.

Observei que não havia uma única fotografia que indicasse seus longos anos como treinador, nem suas também inúmeras conquistas nessa profissão. De repente, porém, sem que eu tivesse a mínima influência, começou a me contar coisas de quando era treinador. Começou devagar, mas logo narrava com o mesmo entusiasmo, o mesmo brilho nos olhos de quando se referia ao seu tempo de jogador. De novo falou de craques, de partidas, de conquistas, como se estivesse em campo, como se sua participação fosse plena. E vi que tudo era futebol. O importante é estar lá, no campo, não importa como. Não ousei perguntar o que tinha sido mais difícil, parar de jogar ou treinar. Achei que não obteria resposta fácil, talvez nem mesmo verdadeira. Perguntei-lhe apenas se seguia o futebol pela televisão. "Não, não vejo nada, não me interessa mais."

Tenho certeza de que mentia. Eu teria feito o mesmo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.