O compromisso da renovação

Vamos combinar: o compromisso de Dunga e da CBF depois do fiasco da Copa de 2006 não era o de renovar a seleção brasileira e recuperar sua identidade? A equipe montada pelo técnico neste período, vitoriosa em algumas ocasiões, tem uma média de idade bastante semelhante à daquela e nenhum atleta mais novo que Robinho entre os titulares, Robinho que há quatro anos já era o mais novo. E é composta quase integralmente de jogadores que atuam no exterior, com algumas exceções como o próprio Robinho, que voltou da Europa depois de não dar certo no Real Madrid e no Manchester City. O estilo brasileiro, de jogadores habilidosos e ofensivos, não tem dado o tom, pois a equipe tem valorizado o contra-ataque e atuado com pelo menos dois volantes na marcação.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Os responsáveis vão alegar que resgataram o tal "comprometimento" dos jogadores, pois embarcaram na onda da mídia expiatória e botaram toda a culpa em Ronaldo (gordo), Roberto Carlos (ajeitador de meião) e Cafu (velho) - a mesma mídia que dizia que Ronaldinho era o novo Pelé e iria ser o grande nome da Copa da Alemanha. Hoje Ronaldinho foi posto na mesma vala dos "jogadores milionários e consagrados que não têm mais motivação para atuar com a camisa amarela". Também vão dizer que desta vez a preparação não terá o mesmo oba-oba que eles mesmos fizeram na Suíça e passará uma semana no Brasil antes de viajar. E que jogadores eficientes como Maicon, Daniel Alves e Luís Fabiano, embora tenham mais de 27 anos, ainda não estão consagrados com a seleção.

O torcedor, porém, quer mais do que vontade; quer ver o Brasil jogar bom futebol numa competição bem mais difícil que a Copa das Confederações e alguns amistosos internacionais. Sabe que o time não tem craques como os que fizeram diferenças nas cinco vezes em que o Brasil foi campeão e que os melhores, como Kaká e o próprio Robinho, não estão a essa altura no momento, para não falar da fase mediana de Luís Fabiano e da fase fraca de Adriano. Mesmos aqueles que por sua disciplina ou versatilidade tática agradam a Dunga, como Elano, estão em ligas menores ou nos bancos de reserva. Não há, por isso tudo, o menor sentido em declarar que "o grupo está fechado" seis meses antes de uma Copa, como as experiências de 1994 e 2002 deixaram claríssimo.

Dunga pode até querer ganhar a Copa ao estilo de 1994, mas não tem uma dupla decisiva como Romário e Bebeto - e não sabe se teria a mesma sorte de contar com um erro do craque Baggio na cobrança de pênaltis. E terá razão se disser que Neymar e Ganso não podem ser titulares, "sentar na janelinha", que tudo dará certo. A torcida e a imprensa têm essa mania de acreditar em salvadores da pátria (e demoli-los sem dó caso falhem), mas isso não elimina o fato de que ambos - assim como Ronaldinho - são melhores do que alguns que têm sido insistentemente convocados. Assim como um dia desistiu de chamar Afonso e de escalar três cabeças de área, Dunga pode muito bem entender que o grupo só vai ganhar se nomes como Kleberson, reserva do Flamengo, e Julio Baptista, nem relacionado no Roma, derem lugar a esses dois potenciais craques.

Um menino que dribla e corre como Neymar e fez 21 gols em 27 jogos, apesar de ter 18 anos, e um outro de 21 anos que tem uma visão de jogo e um toque de classe raros no futebol atual, como Ganso, são a mais perfeita ainda que imatura tradução do que é renovar e recuperar. No mínimo, sentados no banco ou importunando nos treinos, obrigarão os titulares a jogar o melhor. Nunca é cedo demais para testar um talento e nunca é tarde demais para mudar de ideia.

El Coringón. O Corinthians tem uma boa e uma má notícia. A boa é que está jogando bem na Libertadores sem Ronaldo estar bem. A má é a mesma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.