O conto do projeto

O futebol é pródigo em lugares-comuns, se bem que nisso não difere de nenhuma outra atividade. Na conversa de técnicos, dirigentes e jogadores, há mais fartura de frases feitas e conceitos viciados do que grama nos campos. Uma palavrinha que diz muito e nada, essência do papo furado nesse meio, é projeto. Um dia alguém a usou pela primeira vez, para ressaltar a seriedade do trabalho num determinado clube, e logo se alastrou como fogo em mato seco. Daí em diante, todo mundo recorre a ela, quando pretende explicar mudanças. E em geral esconde falta de planejamento, amadorismo e incompetência.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2012 | 03h05

Técnicos amam esse termo, e são suas maiores vítimas. Eles o invocam na chegada e na dispensa de um time. Dá aflição ver o professor mandar ver uns dez projetos na entrevista de desembarque e outros tantos ao explicar por que o tal do projeto não vingou. Tanto numa quanto noutra ocasião, vai gastar saliva, porque o único projeto no mundo da bola se resume ao verbo vencer, com dois complementos: logo e sempre.

Caio Júnior é o exemplo do dia de quem caiu no conto do projeto. Em dezembro, o Grêmio o chamou para implantar um criterioso processo de renovação no elenco. Bonito, não? Na época, era visto como o profissional ideal, pelo perfil moderno, temperamento ponderado e outras bossas do gênero. Não inteirou dois meses no Olímpico e já passou no RH tricolor para acertar as contas e receber a guia de retirada do Fundo de Garantia. No caso, mal teve tempo de esquentar banco, nem mesmo de memorizar os nomes dos funcionários.

A alegação não teve sequer requintes de criatividade. Um cartola foi escalado para afirmar que o Grêmio agradecia a dedicação de Caio, mas que infelizmente a parceria seria interrompida porque os objetivos não foram alcançados. Enfim, aquela embromação que todo cidadão ouve quando a firma não o quer mais e o promove para novos desafios no mercado. Com ou sem projeto.

Caio Júnior não foi brilhante no Sul. Fato. Mas, como esperar que seja marcante a passagem de um treinador que orientou uma equipe em 8 partidas? Oito apenas! Ele não desenvolveu nem cumplicidade com os jogadores sob seu comando. Testava esquemas, tropeçou algumas vezes e caiu no canto de sereia (olha o lugar-comum também no texto...) de que poderia valer-se do Estadual como laboratório. Na hora de assinar, teve essa garantia, e provavelmente sinalização de benefícios como bônus, cesta de Natal, título de sócio remido,plano de saúde. No momento em que a classificação balançou, as promessas dos dirigentes viraram fumaça.

Descobriu-se, de repente, que Caio Júnior não tinha o perfil adequado para o Grêmio. Pelo menos por agora, quem sabemais tarde... Por isso, a busca urgente por profissional mais experiente, como Vanderlei Luxemburgo, o treinador fissurado num pojeto e que nos últimos anos não consegue levar nenhum a bom termo. Vamos ver quanto dura neste.

A história de Caio Júnior é das mais corriqueiras no futebol, pois dispensar técnico integra o folclore. Porém, agride o bom senso e levanta dúvidas em torno do equilíbrio e da eficiência da cartolagem, quando a dispensa vem em tão breve tempo - e se torna recorrente, como no caso do Grêmio, que fez o mesmo com Dario Pereyra, Cuca e Vagner Mancini, para ficar em citações dos anos 2000.

Técnico muitas vezes é supervalorizado e alguns têm desafio acima de sua capacidade. Mas a maioria cai no conto do vigário chamado projeto.

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