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O contra-ataque

Final da Copa América de 2007. De um lado a poderosa Argentina, com seu time principal completo, recheado de craques, todos sedentos de vingança pela derrota nos pênaltis na final da edição anterior do torneio - depois de um gol de Adriano, no último minuto de jogo - e pela goleada de 4 x 1 na final da Copa das Confederações de 2005. Do outro lado, a seleção brasileira do técnico Dunga, com a formação reserva e envolvida numa nuvem de pânico da torcida nacional, que dava como certa a goleada e o escárnio dos eternos rivais. No final do primeiro tempo, já ganhávamos o jogo por 3 x 0, placar que se manteve. Foi o jogo mais difícil enfrentado por Dunga em sua incipiente carreira de treinador.Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, semana passada. De um lado, o Chile, dono de uma surpreendente campanha, jogando no Estádio Nacional repleto de fanáticos torcedores, que haviam voltado a crer na classificação para um mundial. Do outro lado, a seleção brasileira do técnico Dunga, completamente desacreditada por público e crítica, com uma inquietante coleção de maus resultados nas últimas partidas e perto de quebrar o infame recorde histórico de mais minutos sem balançar as redes adversárias. No final do jogo, o placar repetiu os 3 x 0 aplicados na Argentina, pouco mais de um ano antes. Foi o segundo jogo mais difícil enfrentado por Dunga em sua já nem tão incipiente carreira de treinador.O que esses dois jogos têm em comum, além do placar e do técnico Dunga? Por que conseguimos resultados tão expressivos em partidas que julgávamos perdidas? A resposta é simples, mas, ao mesmo tempo, representa uma grande revolução naquilo que vem sendo a proposta tática da seleção brasileira. A resposta, não por acaso, batiza esta coluna: o contra-ataque. Sim, amigo leitor, a seleção brasileira, pela primeira vez em muitos anos - talvez em toda a história -, jogou de contra-ataque. Não é minha intenção defender o trabalho de Dunga, mesmo porque o jogo contra a Bolívia deixou bem claro que o gaúcho não é exatamente um grande estrategista. Mas seria injusto não creditar a ele a ousadia - ou seria a falta dela? - de colocar uma seleção grandiosa para jogar atrás, partindo em velocidade e liquidando os jogos mais críticos com a qualidade de seus homens de frente. Para o bem ou para o mal, Dunga fez o que sempre pareceu um desrespeito para os que estão acostumados com um Brasil que sempre imprensa seus adversários e toca a bola de um lado para o outro, até gastar a bola ou a paciência dos torcedores. Ele fez os jogadores da seleção perderem o apego à bola e entregá-la aos rivais, para, em seguida, recuperá-la e partir em velozes e furiosos contra-ataques.Jamais defenderei que essa deva ser a tática da seleção brasileira em todos os jogos. Somos um time de ponta, temível e respeitado, que precisa fazer valer a sua hierarquia sobre os adversários. Mas não se pode negar que em alguns jogos, especialmente fora de casa contra grandes seleções, a tática do contra-ataque pode e deve ser usada. Atrevo-me a dizer que, se tivéssemos atuado assim contra a França em Saint-Denis, em 1998, já poderíamos ser hexacampeões mundiais. O mais complicado, para os que pedem a cabeça de Dunga, é que, usando o contra-ataque, o Brasil deve bater a Venezuela fora de casa, no mês que vem. Como o jogo seguinte será contra a Colômbia, um time que joga escancarado e que provavelmente bateremos, o treinador deve ficar no cargo no mínimo até março, quando ocorrerá a próxima rodada das Eliminatórias. Dunga deve tudo ao contra-ataque.

Marcos Caetano, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2008 | 00h00

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