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O craque utilitário

A Copa das Confederações fez surgir um novo Neymar. Novo em todos os sentidos. Começou com a troca do Santos pelo Barcelona, agora passa por uma alteração significativa na maneira de se comportar em campo. O mês de treinamentos, sem os compromissos fora do futebol que tanto prejudicam a preparação, contribuiu para maturar o estilo proposto por Felipão.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2013 | 02h08

Por enquanto, Neymar segue na contramão da cultura futebolística de sua nova equipe, o Barcelona. Mas convenhamos que ele está perfeitamente encaixado à natureza das necessidades da seleção brasileira atual.

Trata-se do jogador com o maior número de faltas cometidas (13) e sofridas (18) na Copa das Confederações. Divididas pelo tempo em que permaneceu em campo na primeira fase, a cada oito minutos Neymar é responsável pela paralisação do jogo.

Parando ou sendo parado, a realidade é que o camisa 10, que antes usava a número 11, deve ser visto pelo chefe como um craque utilitário. É capaz de jogar pelo grupo, travar a intenção de ataque do adversário e de produzir bolas paradas, para cobranças diretas ou cruzamentos. Fora os gols e os dribles geniais que desestabilizam qualquer defesa.

Contra o Uruguai, pela história e pelo estilo do adversário, a tendência é que Neymar esteja ainda mais predisposto ao contato físico. Como se trata de uma novidade, deve tomar cuidado. A base da competência do time de Lugano, Godin, Cáceres e até de quem joga no ataque, como Cavani e Suarez, é o confronto.

Falta ao brasileiro calibrar a abordagem ao oponente na marcação. Dificilmente vai aprender a fazê-lo na seleção. O tempo de convivência, como agora, pode até ser mais longo, porém o que tem sobrado para os treinamentos é pouco para tanta informação.

A mudança de Neymar se deu basicamente pela conversa, impulsionada por uma descomunal vontade de vencer com a camisa brasileira. Uma das preocupações com seu futebol era a dificuldade imposta por marcações mais compactas. Afinal, o Paulistão, do qual conseguiu se livrar, não faz parte do mundo real.

Talvez o Barcelona até agradeça Felipão pela transformação. Não pela quantidade de faltas cometidas, isso o clube catalão terá de ajustar, mas pelo comprometimento, pela valentia. E principalmente por mostrar ao menino que o campo de jogo é um tabuleiro, como no xadrez, onde as peças se movimentam de acordo com suas características.

Não se vê mais Neymar e seus dribles supérfluos em setores que coletivamente não significam absolutamente nada para o conjunto. Os excessos podem ter acrescentado muito do ponto de vista pessoal, mas coletivamente foram inócuos. Serviram enquanto ele era o dono do Santos. Para ser o dono da seleção é pouco.

Felipão afirmou ontem que "às vezes a vitória mascara (um problema) e a derrota pode dar um caminho". O comandante não flerta com o fracasso, apenas admite que apesar da evolução do time ainda falta alguma rodagem para se atingir a segurança e a fluidez pretendida pela comissão técnica.

Chegar à final é extremamente importante, contribuirá para consolidar a confiança. Só ela poderá libertar o futebol desses e de outros jogadores que ainda podem ser chamados. O perigo é a equipe trocar as bolas e se envolver demais na competição física. Nessa disputa, o futebol não pode ficar em segundo plano, a exemplo do meio de campo brasileiro, carente de mais relevância. Não basta Paulinho surgir de fininho como atacante ou Luís Gustavo combater como o zagueiro.

O modelo brasileiro ainda não conseguiu juntar as partes para formar o todo. E talvez nem consiga agora, pois falta energia a Oscar depois de quase 80 partidas na temporada.

Com a devida importância que deve ser conferida ao trio ofensivo uruguaio, a seleção brasileira é superior em quase todas as posições, inclusive no banco de reservas. Mas não será o fim do mundo se o novo Neymar não for à final. Como disse Felipão, "a derrota pode dar um caminho".

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