O culto a Mao ainda continua com força

A China abraçou a globalização e as leis de mercado há 30 anos, mas ainda não abandonou o culto à personalidade de Mao Tsé-tung (1893-1976), seguramente o mais controvertido líder de massas do século 20, que deixou rastro de milhões de mortos dentro de seu país.O centro da praça Tiananmen, o coração político e emocional de Pequim, é ocupado pelo mausoléu que guarda o corpo embalsamado do líder comunista e recebe a visita de milhares de pessoas a cada semana. A poucos metros, seu enorme retrato marca a entrada da Cidade Proibida, o complexo de palácios que foi a sede do império chinês por quase 500 anos, até sua derrocada, em 1911.O rosto de Mao Tsé-tung está nas notas de dinheiro chinesas, com exceção das que foram lançadas em comemoração da Olimpíada. Estátuas com sua imagem pontuam a paisagem de todas as cidades do país. As vilas onde ele nasceu e cresceu e os locais que marcaram a ascensão comunista ao poder integram o roteiro da lucrativa indústria do "turismo vermelho".A reverência atual não é nada quando comparada ao grau de fanatismo que cercou sua figura durante a Revolução Cultural (1966-1976), o movimento que deixou a sociedade chinesa à beira da total desagregação e da guerra civil. Todos carregavam o Livro Vermelho de Mao e sabiam de cor as suas citações. A palavra de ordem era a obediência cega a qualquer orientação de Mao, que, por definição, jamais estaria errado. Sua aparição provocava histeria.A crítica a sua autoridade só ocorreu depois de sua morte e, mesmo assim, dentro de limites estritos. O Partido Comunista concluiu que a Revolução Cultural foi um grave erro e que Mao cometeu equívocos e "excessos esquerdistas", mas apenas na parte final de sua vida. A opinião que prevaleceu é a de que sua contribuição para a revolução chinesa supera em muito os seus erros. Os chineses têm uma resposta padrão, quando se quer sua opinião a respeito do líder: foi um grande revolucionário que, como qualquer ser humano, cometeu equívocos.O culto à imagem de Mao também é uma forma de o Partido Comunista evitar que outros líderes reavivem o culto à personalidade, algo execrado depois da Revolução Cultural. Os comunistas criaram instituições para evitar a personalização do poder nos moldes protagonizados por Mao. Ao manter a imagem de Mao como a expressão da liderança do Partido, no mínimo dificultam que o espaço seja ocupado por outra pessoa.

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