Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O desfalque

Finalmente a dengue adquiriu cara e nome. Enquanto a doença era representada por vagas estatísticas ou algum conhecido ou parente atingido, ninguém lhe dava muita importância. Ou seja, lhe dava a importância habitual quando se trata de nossas mazelas. Enfim, há vários anos está aí ao nosso lado e naturalmente, como fazemos sempre, acabamos por incorporá-la ao nosso cotidiano. Ficou sendo uma das coisas nossas. A prova disso é que ela chegou ao nosso esporte mais importante e não causou a mínima sensação.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2015 | 02h02

Todo mundo procura culpados para os últimos fracassos do Corinthians. Foram lançadas ao ar várias hipóteses, muita gente apareceu contribuindo com ideias, bem pobres aliás, sobre as causas dos tropeços. Ninguém até agora se lembrou da dengue. Foi ela, no entanto, que privou o Corinthians de seu melhor jogador, de seu artilheiro maior, centro de referência do seu ataque. E esse jogador tão importante foi tirado de campo não pela violência de algum adversário, não por algum gesto impensado que tenha resultado em expulsão. Ele desfalcou a equipe em dois jogos decisivos por causa de um mosquito. Um ridículo, quase invisível mosquito.

Guerrero foi à Arena assistir ao jogo contra o Palmeiras em companhia da namorada, fraco, convalescente, meio desanimado. A sua imagem deve ter sido exibida pelo telão. E não vi um único protesto, uma única declaração contra os verdadeiros responsáveis pela sua exclusão. Tudo muito natural, afinal a dengue é ou não é uma coisa inevitável, como tempestades, terremotos e outros fenômenos?

Exatamente como o problema da água, essa doença veio chegando, acumulando gravidade ao longo de anos e anos, e como não encontrou nenhuma reação realmente séria por parte dos poderes públicos acabou se transformando numa alarmante epidemia.

Às vezes tenho a impressão de que o público brasileiro não sabe bem sobre o que protestar. Sabe que tem de protestar, sabe que "alguma coisa" precisa ser feita, mas não identifica bem o quê, nem sobre o quê.

Essa questão da dengue, antiga de décadas, é também exemplar pelo muito que revela da nossa verdadeira condição. Temos "arenas" excelentes, de "primeiro mundo", confortáveis, de instalações sofisticadas, dentro das quais todos se sentem na Alemanha. No entanto, um jogador não pode disputar uma partida na belíssima arena porque foi infectado em algum lugar, talvez em suas próprias dependências. Pode ser que uma pequena poça de água, insignificante e miserável num canto da linda "arena" tenha abrigado o mosquito e provocado a ausência de Guerrero. Não que tenha acontecido realmente no Corinthians, e se aconteceu pode acontecer o mesmo em qualquer arena moderna que temos por aí. Porque nossas questões fundamentais, nossas questões mais básicas, não são nunca resolvidas. São, ao contrário, vítimas de medidas que têm por finalidade ocultá-las e nos dar a ilusão do que não somos.

É terrível que enfrentemos situações como a de algumas regiões da Africa onde ninguém quer colocar o pé com medo de pegar alguma doença fora do controle. O governo dos Estados Unidos já anda prevenindo turistas sobre a dengue no Brasil.

Falando em aviso, aliás,quem dirige a Libertadores podia muito bem prestar um serviço ao povo brasileiro. É só suspender qualquer jogo em São Paulo ou outras regiões altamente infectadas enquanto não se debelar a enfermidade. Ou talvez pudesse ocorrer que algum clube da Argentina, país que nos acostumamos a olhar com certo desdém, se recusasse a jogar aqui. Quando clubes como Boca ou River ganharem o direito de não porem os pés aqui, talvez a dengue finalmente deixe o gramado para preocupar também as arquibancadas. Conto com esses estrangeiros para isso. Só de um protesto de fora poderá vir alguma providência. Daqui acho difícil. Vide a questão da água.

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.