O dia em que o tempo nocauteou Ali

Há 30 anos, a 'nobre arte' ficou menos ágil, veloz e criativa com o fim da carreira de seu lutador mais importante

WILSON BALDINI JR., O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h02

Foi em um modesto campo de beisebol, em Nassau, nas Bahamas, há exatos 30 anos, que Muhammad Ali subiu pela última vez em um ringue. Mas a despedida do nome mais importante do boxe em todos os tempos foi melancólica. Diante de dez mil espectadores, Ali, aos 39 anos, se apresentou com 107 quilos - maior peso de sua carreira -, com visíveis problemas motores e com a voz prejudicada.

Seu médico particular, Ferdie Pacheco, afirmara que o boxeador já estava com sinais de problemas neurológicos - em 1984, Ali revelou estar com Mal de Parkinson. Os organizadores do combate levaram Ali para ser examinado por 30 médicos em Nova York. Ele foi submetido a todos os tipos de exames da época e nada foi constatado.

Por US$ 1,1 milhão, Muhammad Ali se preparou por 11 semanas na pequena ilha do Atlântico para enfrentar o canadense Trevor Berbick, de 27 anos, quarto colocado no ranking da Associação Mundial de Boxe. Ex-campeão dos pesos pesados, Ali sonhava com a quarta conquista. Os críticos norte-americanos não acreditavam em um novo "milagre", como aquele de 1974, quando da vitória espetacular sobre George Foreman, no Zaire. Mesmo diante de um rival limitado como Berbick, que iria receber US$ 350 mil e que tinha como melhor resultado uma derrota por pontos para Larry Holmes, oito meses antes.

Na entrevista coletiva, Ali mantinha o bom humor, uma de suas características. "Berbick é um adversário fácil de pegar. Eu sou o mesmo que bateu Joe Frazier, em Manila", disse, referindo-se ao épico duelo de 1975, quando venceu o grande rival. "Posso dançar e pular os dez roundes. Berbick não vai me achar no ringue. Só vai sentir meus golpes."

E Ali realmente surpreendeu nos três primeiros assaltos, ao iniciar o combate com o seu tradicional jogo de pernas, um tanto menos veloz, e o jab perfeito, que acertava em cheio a cabeça do adversário. Um direto de direita tirou o equilíbrio de Berbick no terceiro assalto. O público vibrou e gritou "Ali, Ali, Ali", acreditando em mais um milagre do "The Greatest".

A partir do quarto assalto, Berbick passa a atacar a linha de cintura de Ali, que por sua vez abusa do 1-2 (jab de esquerda e direto de direita), seguido por um agarrão. A respiração já está ofegante e os golpes não têm a mesma eficácia. No quinto assalto, Ali vai para as cordas e guarda energia para surpreender o rival nos 30 segundos finais.

No sexto, Berbick tenta pressionar, mas seu boxe é pobre. Se Ali tivesse dez anos menos, o canadense já não estaria mais em ação. No sétimo round, o instinto de Muhammad Ali o faz catimbar, ao chamar o adversário para a briga, após uma troca de golpes.

No intervalo para o oitavo round, o técnico Angelo Dundee, que esteve ao lado de Ali em toda a sua carreira, está preocupado. Em 1980, foi o treinador que mandou o juiz parar a luta antes do 11.º round para, desta forma, encerrar o castigo que o jovem promissor Larry Holmes impunha ao seu pupilo.

Mas desta vez Dundee permite que a luta siga. E Ali volta com seu jogo de pernas e até arrisca perigosas esquivas. Tanto esforço deixa o ex-campeão esgotado. Sua sorte é que Berbick também está cansado, mas a juventude está ao seu lado. O canadense ataca todo 9.º round, assim como o décimo. O público não se contém. "Ali, Ali, Ali" é o grito dos espectadores e de todos que acompanhavam aquela luta em todo o mundo, sabedores de que o fim da carreira do maior mito da nobre arte estava chegando ao fim.

Placar. Os jurados foram unânimes a favor de Berbick. Dois anotaram 99 a 94 e outro, 97 a 94. Mas o resultado pouco importava. Muhammad Ali não havia perdido para Trevor Berbick. Ele havia perdido para o tempo.

"Eu te amo. Vou ganhar o título mundial em sua homenagem", disse Berbick, ainda no ringue. Ele cumpriu a promessa em 1986. Mesmo ano em que perdeu o cinturão para Mike Tyson. Berbick morreu em 2006, aos 52 anos, assassinado pelo sobrinho.

Há 27 anos, Ali convive e ajuda as pesquisas na busca pela cura do Mal de Parkinson. No início de carreira seu slogan era: "Voar como uma borboleta e picar como uma abelha". Hoje a abelha não machuca mais, mas a borboleta segue espalhando amor pelo planeta.

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