O dilúvio e a raiva de Felipão

Scolari se conteve para não transformar em palavras a raiva que sentia. O Palmeiras acabara de vencer o modestíssimo Comercial do Piauí por 2 a 1 e obrigava-se a disputar a partida de volta, que nesta etapa da Copa do Brasil representa prejuízos de ordem física, técnica e financeira. O jogador profissional nem sempre entende esses detalhes, as vantagens de um pouquinho mais de aplicação ao trabalho.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

O compromisso pela competição nacional poderia ter sido evitado numa semana que colocava na agenda palmeirense um clássico bastante complicado, principalmente para um grupo que já havia sido derrotado pelo Corinthians em crise, e que dera apenas dois chutes a gol.

Felipão e seus jogadores sabiam que o futebol de quarta-feira, e a vontade de jogá-lo contra um time quase amador, não poderia ser repetido no domingo. E não foi.

O São Paulo teve um início superior. Desde o retorno de Lucas da seleção sub-20, o bom entendimento entre Dagoberto e Fernandinho ganhou mais um parceiro de velocidade, criando um trio atacante, e praticamente definindo o plano tático da equipe, novamente arquitetada defensivamente com três zagueiros. Esse formato diminui as chances de vermos Rivaldo como titular. Pelo menos do jeito que o time vem jogando.

Tudo caminhava para mais uma derrota de Felipão em clássicos quando Alex Silva contribuiu decisivamente para chamar todo o Palmeiras para a área de Rogério Ceni. O zagueiro são-paulino irritou-se com a tentativa de Adriano cavar uma falta e enroscou-se infantilmente com o adversário.

Com a expulsão, a partir dos 13 minutos do segundo tempo, o apetite que não se viu em Teresina ajudou a desenhar o caminho do empate estabelecido por Adriano. O resultado foi bom pelas circunstâncias, mas ainda mantém o time longe do razoável, seja no calor do Albertão ou no aguaceiro do Morumbi.

Racha nos 13. O curioso nessa batalha de grana e poder no Clube dos 13 é que os mesmos argumentos utilizados pelos clubes para criticar a entidade na venda dos direitos de televisão serviriam também para justificar uma relação diferente com a CBF, mais crítica, questionadora, verdadeiramente em defesa das agremiações associadas.

Na prática, porém, isso é ficção. O C13 adquiriu várias tonalidades políticas desde a sua fundação em 1987, sem conseguir desenvolver uma identidade. Se fosse um time, chutaria para os dois lados. Começou sua história na vanguarda e foi se aproximando perigosamente dos interesses dos grupos que dominam o futebol. Hoje, quando dava indícios de uma guinada rumo à profissionalização, foi implodido pelos interesses do mercado e pela CBF, de quem todos morrem de medo.

Os cartolinhas trafegam da situação para a oposição com a desfaçatez de tarimbados personagens do cenário eleitoral. São professores de um jogo de regras viciadas, definidas pela conveniência política e por pequenas vantagens. Gente sem noção do que possa significar convicção.

Isso torna cômica a posição do Corinthians nessa batalha. Se é mesmo para defender os interesses do clube, existe algo bem pior que o Clube dos 13. Existe algo para ser combatido com a mesma firmeza de propósitos, com a mesma veemência: atende pelo apelido de CBF.

"Levezinho". Bastou colocar um especialista na função para o Corinthians dar uma guinada. Com Liedson, reconquistou a confiança e venceu 2 clássicos. Com 7 gols em 5 partidas, o "Levezinho" justifica o apelido recebido em Portugal, resultado de mobilidade, velocidade e destreza para aproveitar as oportunidades que lhe são oferecidas. Agora o time experimenta as vantagens de jogar com 11.

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