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O dom de iludir

Não houve evolução. Sem Neymar a seleção de Dunga tentou disfarçar seu desconforto pela ausência do principal jogador brasileiro, destaque quando está presente e ausente da equipe. Também não foi contra a Venezuela que o Brasil mostrou sua melhor versão de jogo coletivo.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2015 | 02h34

Com Robinho, William, Firmino e Coutinho, houve bastante movimentação, mas faltou profundidade. Em vários momentos a bola procurou um destinatário na área, mas não o encontrou. Quando isso acontece, a solução é recomeçar e oferecer ao adversário mais uma oportunidade para se ajustar defensivamente.

Por medo, timidez ou por ordem do treinador, Fernandinho e Elias mantiveram-se demasiadamente em linha, longe de preencher espaços no meio de campo a ponto de melhorar a transição ofensiva. Foi o futebol possível. Estranho seria uma revolução em tão pouco tempo.

O gol de Firmino foi o resultado de alguns valores importantes que o time deve incorporar: virada de jogo (da direita para esquerda, para o lateral Filipe Luís), exploração da linha de fundo (cruzamento de William) e a infiltração dos atacantes. Depois do segundo gol, a Venezuela saiu de vez para jogar e Dunga recuou demais a equipe para se defender e contra-atacar. Abriu as portas ao perigo.

Sem Neymar, enquanto a seleção estiver na competição, dificilmente o caminho será diferente. Foi o suficiente para vencer, sem empolgar. Que venha o Paraguai.

Não é apenas a seleção que precisa aprender a jogar sem Neymar, é todo um futebol, historicamente acostumado a individualizar as soluções e dar nome e número a elas. Um talento como ele não pode ser problema. Será sempre solução, desde que colocado no seu verdadeiro lugar.

Neymar é o jogador especial de uma geração que precisa ser muito bem trabalhada. As dez vitórias sob o comando de Dunga antes da Copa América, construíram mais uma daquelas estatísticas que, quando confrontadas com realidade, não servem para nada.

Bastaram dois jogos para Neymar provar sua importância técnica e seu destempero, provavelmente por ter responsabilidade demais sobre seus ombros. Com marcação forte e imposição física, a Colômbia travou o meio de campo brasileiro e ninguém conseguiu jogar.

Aos 23 anos, um dos pilares do Barcelona no recente título da Liga dos Campeões é o líder da seleção brasileira. Carrega a braçadeira de capitão, decide jogos e atende a compromissos comerciais. É um vendedor de estilo, perfeito para a tese do apagão, criada por José Maria Marin para explicar o vexame no Mundial.

A explicação do cartola, mais uma de suas traquinagens, transfere a responsabilidade apenas aos jogadores. A falha é deles, jamais dos dirigentes, incapazes de enxergar os verdadeiros motivos do fracasso. Porque não querem, porque não conhecem a realidade, ou simplesmente porque não são do ramo. Como não é Marin, não é Marco Polo Del Nero, não é Walter Feldman, o médico escalado para cuidar de um futebol doente, que ele está ajudando a matar.

Gente que tem o dom de iludir. Se bem que nessa história ilude-se quem quiser, enquanto o sistema se esfarela e coloca alguns de seus figurões atrás das grades.

Não é fácil extrair a seleção brasileira dessa podridão e desenvolvê-la para a disputa das Eliminatórias. Por isso cresce a importância desta Copa América. William, Firmino, Coutinho, Tardelli e Douglas Costa precisam de quilometragem com a camisa amarela para formar uma equipe de verdade e adquirir confiança com e sem Neymar.

Por enquanto, o que se vê é uma seleção apequenada por sua cartolagem, forte o suficiente para ter bancada própria no Congresso. Gente competente na defesa do atraso, que condenou o futebol brasileiro à segunda divisão. É o dom de iludir.

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