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O duplo

Não sou um historiador do futebol, não tenho muitos dados nem tenho disposição para pesquisá-los. Uso o que fica na minha memória e, se não é certo, geralmente é ben trovato, como dizem os italianos. Por isso o que vou falar de Robinho talvez contenha as inexatidões habituais. Mas não creio estar enganado nas linhas gerais.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

08 Março 2015 | 02h02

Lembro quando Robinho apareceu no Santos, comandado por Leão, e ganhou o Campeonato Brasileiro. Era um craque, fruto de nossa melhor estirpe. Driblador, irreverente, alegre. Pelo físico, pela cor, pela habilidade, pelo sorriso, lembrava uma infinidades de craques anteriores, todos produtos das brincadeiras de meninos brasileiros.

Imediatamente depois de seu surgimento, a maquina de fazer dinheiro que já movia o futebol da época se pôs em movimento e ele se foi para a Europa. Nunca deu muito certo por lá. Aliás, não deu nada certo. Até para alguém como eu, que acompanha realmente à distância o futebol europeu, chegava o eco de uma certa decepção com o nosso craque. Começou a ser questionado, de início em privado para, finalmente, os comentários se fazerem quase públicos.

Principalmente porque, quando voltava, obedecendo alguma convocação para a seleção, realmente não jogava bem nem era o mesmo menino prodígio. Na minha opinião nem podia ser, pois vinha desmotivado, com autoestima na altura dos tornozelos, inseguro e cheio de incertezas. Além disso, era frequentemente mal escalado. E regressava a seu time europeu para continuar uma carreira opaca.

O Santos o fez voltar por um curto período em 2010, e - surpresa! - aqui recuperou seu futebol. Fez uma boa temporada sem ainda chegar aos velhos tempos, mas mostrando algumas das antigas qualidades. Teve que voltar para a Europa e a história se repetiu. A mim dava muita pena ver um jogador como aquele se arrastar por campos gelados, como mero jogador comum, desses que chegam quase como experiência, sobre os quais há uma imensa desconfiança por parte da torcida, do treinador e dos racistas de plantão.

Era triste vê-lo correr daqui pra lá sem que eu pudesse identificar o que fazia exatamente, o que lhe tinham pedido pra fazer em campo. Era um jogador triste, mesquinho, frequentemente sentado no banco, desvalorizado. E o Santos o trouxe para cá mais uma vez. E mais uma vez ressurge o craque.

O Robinho que jogava lá fora era um fantasma, uma sombra. O verdadeiro Robinho está aqui, jogando desta vez como nos primeiros tempos. Aos 31 anos, depois de temporadas e temporadas sem brilho, recuperou dentro de si mesmo o garoto que se foi tantos anos atrás. Até Dunga, desesperado pela situação que vê diante de si, rendeu-se e fala em alegria. Logo ele!

Só que a alegria de Robinho talvez seja um privilégio só nosso. Pela segunda vez se recupera. A famosa segunda chance, a chance da redenção, tão cara aos filmes americanos, surgiu em sua vida. É evidente que é um craque. Mas talvez seja um craque diferente que precisa de sua terra, que não dispensa seu idioma e uma maneira de viver.

Neste momento o novo Robinho deve estar sendo mostrado na Europa, para onde certamente vai voltar. O Santos dificilmente terá condições de retê-lo. E mais uma vez damos de presente para a Europa um nosso craque autentico, recuperado em todas as suas potencialidades. Vamos novamente regalar a Europa com o que temos de melhor: a velha, desconcertante e quase extinta maneira de jogar bola.

Os empresários, os agentes, todos devem estar esfregando as mãos. Robinho se valoriza de novo, há grana à vista. Alguns treinadores europeus também estão de olho, certamente prontos para corrigir certos "defeitos táticos'', certa "disciplina'', tão necessária para se jogar na Europa, certa tristeza essencial que vem de dentro e que com certeza tratarão de inculcar em Robinho, como já fizeram antes. Dunga que se cuide. Alegria é um sentimento frágil.

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