O entrega-entrega

E eu que achei que o interminável e improdutivo debate sobre as arbitragens seria o que de pior poderia acontecer para lançar sombras sobre um campeonato tão emocionante quanto o Brasileirão 2010. Puro engano. O improdutivo e interminável debate sobre os clubes que estariam entregando os jogos para prejudicar seus rivais é, hoje, muito mais ameaçador à imagem da mais importante competição de clubes no Brasil do que qualquer outro evento. E isso acontece porque muita gente vem sendo míope na hora de avaliar todos os desdobramentos da questão.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Meto aqui a minha colher no assunto, com a esperança de ajudar mais do que atrapalhar a mistura desse angu.

O primeiro grande erro de muitos que discutiram o assunto foi criticar a atitude dos torcedores com a mesma ênfase usada para criticar a postura dos profissionais do futebol. São coisas completamente diferentes. Sobre o torcedor, digo e repito: desde que sem violência, tem direito de fazer o que quiser. Pode vaiar o adversário, pode vaiar o próprio time, pode pedir para o time ganhar, pode pedir para o time entregar. O futebol, embora nos esqueçamos disso a torto e a direito, é uma forma de entretenimento e, assim, os torcedores têm todo o direito de não levá-lo tão a sério. E é utópico, para não dizer estúpido, imaginar que os torcedores do Palmeiras desejem uma vitória do seu time sobre o Fluminense como forma de ajudar o arquirrival Corinthians, ou mesmo esperar que o Vasco se desdobre para bater o Corinthians e dar o título ao Fluminense.

Entretanto, se os torcedores têm todo o direito de brincar com essa história de entregar o jogo - desde que não ameacem a integridade dos jogadores que se recusarem a fazê-lo -, dirigentes, treinadores e atletas devem encarar a questão com o profissionalismo que ela exige.

Aliás, com todo o profissionalismo que todos os assuntos ligados ao futebol exigem, no caso deles. Afinal, estamos falando de profissionais (muito bem) remunerados. Nesse sentido, considerei lamentável que um técnico da estatura do Felipão tenha feito troça do natural interesse que o Corinthians tem no confronto Palmeiras x Fluminense. Dizer que nem sabe se haverá jogo no domingo e cogitar dar férias para os seus jogadores mesmo em caso de derrota para o Goiás na semifinal da Copa Sul-Americana, o que acabou acontecendo, são atitudes pouco profissionais e surpreendentes, vindo de alguém que é um líder de sua categoria. Como assim férias antecipadas? Os titulares perdem um jogo que o próprio técnico classificou de "vergonhoso" e ganham de presente duas semanas extras de férias? Não. Esse não é o Felipão que eu conheci em 2002, na Copa do Mundo.

Quem ficou chocado com a postura do tarimbado treinador deve ter caído da cadeira ao ouvir as declarações de Antonio Carlos Corcione, diretor executivo de futebol do Palmeiras. "Quero convocar os palmeirenses que moram no Rio, a torcida do Fluminense, que venham a São Paulo. Ainda temos oito mil ingressos à disposição. Será o jogo do título. Tenho certeza de que o Fluminense poderá jogar aliviado", declarou, para em seguida continuar provocando: "Venham a São Paulo passar momentos agradáveis. Os torcedores poderão aproveitar o macarrão nas nossas cantinas e presenciar o jogo que pode ser o do título". Ora, não dá para alguém viver do esporte e tratar seu ganha-pão de forma tão desrespeitosa. A honra do Palmeiras não deveria acabar em pizza. E muito menos em espaguete.

Clássicos estaduais. Em meio a esse clima, surgiu a proposta feita por Mano Menezes, que defende clássicos estaduais nas rodadas finais do Brasileirão como uma alternativa para evitar o entrega-entrega. A medida pode ser útil, mas se os profissionais do esporte não tiverem consciência ética, se prevalecer a atual postura antiprofissional, em breve veremos clássicos estaduais com empates armados para evitar o rebaixamento, times perdendo para um rival para prejudicar outro rival ainda mais rival - e assim por diante. O torcedor? Ah, deixem o torcedor se divertir em paz! Em paz, ele pode tudo.

Por falar nisso, paz no Rio.

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