Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2008 | 00h00

Dunga foi a opção conveniente que a CBF encontrou para supostamente atender às cobranças da torcida depois do fracasso na Alemanha. Queriam uma seleção mais "guerreira" e "brasileira". Talvez então um jogador identificado com sua história - e a quem pediam em 1998 que gritasse mais e mais com seus colegas em campo - pudesse trazer parte dessa imagem. Mas dois anos se passaram e, afora algumas vitórias localizadas, como duas sobre a Argentina, o time de Dunga foi parecido com o anterior em estilo - e inferior em qualidade. A mesma Argentina veio decretar essa mediocridade em Pequim, ao derrotar o Brasil de um Ronaldinho que Ricardo Teixeira convocara pessoalmente pela TV Globo. A propalada renovação não era real.É claro que você pode dizer que Dunga é apenas um dos problemas; que a nova geração não é brilhante, etc. Tampouco foi por falta de aviso. Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo e os demais veteranos foram acusados pela derrota de 2006, e muita gente acreditava que com Cicinho, Gilberto e Robinho a França de Zidane (ou a Itália de Cannavaro) teria sido batida. Bem, olhem como estão Cicinho, Gilberto e Robinho em suas carreiras... Em 1998, aquela geração não estava madura; em 2002, com um técnico que entendeu tudo isso, atingiu seu auge; em 2006, já tinha passado do ponto. Simples assim. Convulsões e estrelismos - ou não ter passado pelo Brasil antes de viajar - não foram o fator central. Melhor imagem ou mesmo o triunfo poderia ter vindo se a mentalidade fosse outra.Justamente por viver uma entressafra de jogadores é que a seleção precisa de um técnico melhor. Ídolo por ídolo, sou muito mais Zico de técnico, até porque é bem mais experiente na função do que Dunga. Mas achar que Zico vai trabalhar com Teixeira é delírio. O camisa 10 da seleção de 1982 jamais aceitaria montar um time com a idéia preconcebida de que ao futebol brasileiro basta "manter a posse de bola" porque a diferença técnica resolve o placar a qualquer instante... Esse foi o maior erro de Parreira, mesmo que eu discordasse da escalação; foi adotar um esquema de toques laterais e avanços lentos, acreditando que o que fez em 1994 pudesse ser modelo para qualquer circunstância e adversário. Pois Dunga, capitão daquele time, cometeu o mesmo equívoco agora.A escola brasileira é do jogar com a bola? Sim; mas não nesse padrão caranguejo, não nesse ritmo "blasé", sem a incisividade que sempre caracterizou os grandes craques e os grandes times brasileiros, como a seleção e o Santos de Pelé, o Flamengo de Zico, o Palmeiras de Roberto Carlos e Rivaldo. Num futebol com tanta força física como o atual, tentar aproveitar rapidamente as brechas é ainda mais importante. O que me incomoda na CBF, além de todas as suspeitas sobre a administração dos recursos, é essa pose "somos pentacampeões, só precisamos entrar em campo". Parreira e Dunga cometeram erros. O da CBF é o maior.A HISTÓRIA DE RENANConheci na China um jogador chamado Renan, de 25 anos, que se formou no Palmeiras e passou por Juventus e outros clubes antes de partir. É centroavante do Sichuan Futebol Clube, time da Segunda Divisão, mal-afamada por jogos combinados. Veio parar aqui por negociações de seu empresário, com quem agora rompeu. Seu sonho? Ir para a Primeira Divisão - do mesmo futebol chinês. Que até um sujeito na situação dele prefira peregrinar no submundo asiático a jogar no país do futebol tem algo a ver com os problemas descritos acima. Só quando confederações e clubes - como nos demais esportes - entenderem o que é investir em futebol a longo prazo, sem imediatismo nem feudalismo, esse quadro poderá mudar.

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