O esfarelamento da autocrítica

Boleiros

Paulo Calçade, O Estadao de S.Paulo

20 de julho de 2009 | 00h00

O resultado do clássico funciona como uma bússola. O vencedor encontra o rumo certo e parte para uma nova vida. Mas não é o caso deste São Paulo 2 x 1 Santos. O momento exige mais. A vitória ajuda, conforta, mas não resolve todos os problemas. Enquanto o Santos passa a exibir a partir de hoje "Vanderlei Luxemburgo, o retorno 4", o São Paulo precisa refletir para encontrar a pedra no meio do seu caminho. Ricardo Gomes voltou ao 3-5-2 e a equipe venceu. Frágil, mas venceu. Mas essa não deve ser uma relação assim tão simples. Depois de algumas partidas, está cada vez mais claro que o problema central reside no comportamento dos jogadores e não apenas na forma de jogar. Afinal, se parte do mérito do antigo treinador estava justamente na versatilidade de sistemas e esquemas, estamos diante de um time preparado para jogar de maneiras diferentes. Logo, essa não deve ser a maior dificuldade. Mas é uma boa desculpa. Na quarta-feira, após a derrota para o Atlético-MG, Marco Aurélio Cunha, superintendente do São Paulo, voz constantemente afinada para espetar a concorrência e fazê-la lembrar de sua insignificância, abandonou seu habitual discurso otimista para reconhecer que "um tricampeão também perde a autocrítica". E certamente perdeu muito mais: perdeu a forma, o jeito de jogar, a eficiência defensiva, a contundência das bolas paradas e a aplicação tática. Perdeu, principalmente, o bom ambiente que emoldurava o perfeito mundo são-paulino, o que parecia ser indestrutível. Até os cartolas acreditavam nisso, na perfeição. Com o esfarelamento da autocrítica, o grupo determinado e resiliente se dissolveu. Essa é a grande perda, pois leva com ela a confiança, a consciência, a química capaz de fazer um jogador executar tarefas que até o próprio desconfia. Neste São Paulo de Muricy e agora de Ricardo Gomes, já não se corre tanto, não se luta como nas três campanhas dos Brasileiros de 2006, 2007 e 2008. O time que chegava antes, agora corre atrás dos rivais. De letal a letárgico. Mesmo com Rogério Ceni inteiro, nuvens carregadas da má fase já rondavam o Morumbi. Sem o capitão, a personificação de todos os tipos de liderança que se poderia encontrar no mercado, o sentido de equipe, de jogo coletivo, ruiu. Essa era justamente a essência das conquistas. Muricy fazia questão de deixar claro que comandava apenas um craque, e que ele jogava no gol. Lembrava ao grupo que o sucesso era fruto do trabalho de todos, mistura da intransigência do treinador com a mobilização do grupo em torno de uma ideia. Esse São Paulo não existe mais, talvez surja até um melhor no lugar dele. Hoje, mesmo com a vitória, é impossível definir um prazo para o retorno do futebol confiável. O trabalho é árduo, pois uma nova equipe precisa ser construída, talvez até com outros jogadores. Ao contrário do São Paulo, que troca de treinador mas mantém uma estrutura funcional, o Santos é dependente das chegadas pirotécnicas, de alguém que resolva os problemas onde a diretoria falhou. Com Luxemburgo, o clube mira o futuro com olhar fixo no retrovisor. Mas que personagem do treinador vai atracar na Vila Belmiro? O presidente de clube? O manager? Ou o comandante focado no campo, eficaz? Você vai ouvir milhares de vezes a história do projeto, do planejamento e da comissão técnica que mais parece a equipe de lançamento de foguetes da Nasa. Faz parte. E quando ela for embora, o que vai sobrar para o Santos?

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