O Estadao de S.Paulo

18 de setembro de 2008 | 00h00

Estranho esse Campeonato Brasileiro de 2008. Nenhum time se firmou, nenhum grande destaque ou revelação, uma certa paridade que poderia muito bem significar emoção, mas está mais para uma mediocridade anêmica e pastosa. As rodadas vão se sucedendo e o esperado estouro não acontece. Será que vai ser assim até o final? Se continuar desse modo, também não é de todo ruim, afinal a disputa se manterá aberta até as últimas rodadas. Mas tem alguma coisa que não parece correta. Futebol é paixão, não é somente cálculo, cautela e convenção. Estaríamos todos nós anestesiados pelo mau costume de não ter mais aquela esperança infantil e inesgotável? Será que a seqüência de episódios obscuros e nunca desvendados dos escândalos públicos e políticos vazou para além do Olimpo de concreto do cerrado e escorreu seu óleo sujo para os nossos dedos desencorajados?Estranha essa nossa seleção brasileira que não mais encanta. Nenhuma atuação realmente convincente, nenhum resultado estrondoso que revele a vibração do sangue correndo pelo corpo, nenhum passe desconcertante, nenhum calor, quase mais nenhum torcedor presente nas cadeiras ou nas arquibancadas. Nem mesmo a evidência da falta de repertório do técnico atual é suficiente para reverter a sina do acomodamento, e promover sua substituição inevitável. Batendo ponto como o mais apático funcionário que espera o relógio bater suas 18 badaladas, que espera o fim de semana para vestir o pijama e os chinelos em busca da cerveja nem tão gelada, que espera a aposentadoria para reclamar depois que a vida está muito parada, assim vamos na contagem regressiva da certeza de que a classificação brasileira para uma Copa do Mundo já nasceu assegurada. Para fazer o quê, então? Para fazermos na África do Sul o mesmo nada que fizemos na Alemanha? Para depois sonhar com a grande festa brasileira de 2014?Estranho esse mundo que parece caminhar cego e insensível sobre o fio invisível do destino que ruma ao certo pro abismo, mas não arruma um jeito ou uma rota alternativa que não bater de frente com sua invenção. Excessos demais, velocidade demais, dinheiro demais pra quem quer sempre mais e mais e mais, enquanto aqueles que não estão vivendo com esse excesso todo na verdade estão sim, mas com o excessos da ausência, da inexistência, da falta de tudo que não apareceu porque não sobrou. E o jeito atual de querer tudo imediatamente acaba por corroer o tempo tão vorazmente que não sobra nem mesmo tempo pra sentir desejo, pois o enjôo de tanta coisa até a fome já matou. Será que a liberdade é um gesto impossível, será que liberdade é apenas um sonho inatingível, já que estamos amarrados a essa vida com os pés na terra e a cabeça deitada sobre o colchão?Estranha essa vida que começa sem que a gente escolha; que, quando começa, nunca mais pára; que o tempo que passa parece melhor depois do que foi durante; que o que a gente espera, quando acontece, é sempre diferente de como a gente pensava que seria antes; e que no entanto a gente sempre acha graça, não quer nunca perder essa graça, mas sabe que nada acontece de graça, pois nem mesmo milagre acontece sem o esforço da fé. Quando eu era criança, queria ser jogador de futebol. Não queria ser astronauta, nem bombeiro, nem presidente de banco ou da República. Queria jogar bola, sonhava que um dia marcaria o gol do título com o estádio repleto de torcedores gritando em uníssono o meu nome. Nunca passei de um lateral-direito razoável, esforçado e míope. Será que é por isso que eu me recuso a acreditar que o futebol está morrendo?

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