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Ugo Giorgetti
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O fantasma

Há um fantasma que ronda o CT do Corinthians. Não é visto, mas sua presença é sentida por toda parte, como acontecia nos velhos castelos ingleses dos contos góticos. É apenas um nome, que ninguém consegue esquecer. Quando as coisas estão bem o nome é apenas sussurrado com gratidão nas recordações dos torcedores, quando as coisas vão mal o nome ganha força e passa a ser gritado em voz cada vez mais alta.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h01

Nesse momento o nome está ecoando pelos corredores do CT, talvez da nova arena, certamente pelas sedes das torcidas organizadas, e pelos bares da vida. O fantasma chama-se Tite. Sua saída da vida do Corinthians foi um pouco nebulosa, já anunciando o fantasma que viria. Nada de desavenças, nada de brigas e revoltas mas, ao contrário, homenagens, choro e emoção. Nunca tinha visto treinador que deixasse clube de maneira tão educada. E ficou um problema. Tivesse Tite aceito imediatamente outro emprego o fantasma não existiria. Mas Tite desapareceu, aparentemente.

Falou-se em ano sabático, falou-se em cursos no exterior, enfim, tudo menos voltar às agruras da bola, às asperezas do dia a dia dos grandes clubes, à realidade do futebol brasileiro.

Tite tornou-se irreal como uma lenda. Só que como toda lenda, ameaça constantemente quem ocupa o cargo que foi dele um dia. Qualquer treinador que assumisse o Corinthians depois de Tite o teria ao lado, fantasma é verdade, mas ao lado, invisível, no banco como nos treinos. E presente nos resultados. Nos maus resultados principalmente.

Acho que Mano Menezes foi contratado porque também tinha deixado seu rastro de conquistas no Corinthians. Mas, nesse quesito, não poderia enfrentar Tite. Tem também uma personalidade parecida com a do fantasma. Os dois são educados, polidos, racionais e leais a seus subordinados. Nesse sentido creio que a contratação de Mano foi uma atitude que tinha sentido e coerência na tentativa de substituir Tite. Mas estamos vendo que não é absolutamente suficiente.

Mano teve dificuldades, alguns maus resultados, as coisas se voltaram perigosamente contra ele e, até outro dia, a presença invisível de Tite começou a tomar forma de novo no clube. O problema Tite tem que ser resolvido ou não haverá paz no Corinthians seja quem for o treinador. Ou Tite aceita alguma proposta de algum clube do Brasil ou do exterior, ou o Corinthians tem que trazê-lo de volta o quanto antes. O silêncio de Tite e sua ausência dos campos indicam que uma proposta do Corinthians não seria exatamente mal recebida por ele. Então é melhor trazê-lo e já. De outra maneira o possível próximo treinador, vai ter que enfrentar não só a realidade do Corinthians, mas também seu fantasma. E a história vai se repetir enquanto o fantasma estiver por lá.

O melhor seria Tite de novo entre nós. Fazê-lo materializar-se outra vez diante da torcida e por à prova todas as suas conquistas. Isso é também um problema. Sabemos como são transitórios a gratidão e o amor das torcidas. Sabemos como são pouco pacientes. Talvez até mesmo para Tite seja confortável a situação atual de fantasma, que mantém intacta sua posição e imagem diante da torcida que ainda o idolatra.

Escrevo na sexta, não sei o que vai acontecer até domingo quando sai esta coluna. Mas esse impasse entre Corinthians e Tite, tem que terminar um dia. Tite não pode ser apenas uma gloriosa estátua. Suas grandes qualidades de treinador não permitem isso. Talvez tenha esperado a seleção brasileira. Talvez ainda espere. Mas também não foi desta vez e lá está Dunga. É tempo, portanto, de voltar à vida. No Corinthians ou não. Para o Corinthians a grande vantagem de tê-lo de volta seria fazê-lo confrontar-se consigo mesmo. Seria fazer com que, por uma vez, Tite tivesse para assombrá-lo nada menos que seu próprio fantasma. Só quando o fantasma e o treinador forem a mesma pessoa haverá sossego e paz.

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