O ferrolho de luxo do papai Joel

A excelente campanha corintiana no Brasileiro afetou o comportamento dos rivais. Papai Joel Santana preparou um pacote de surpresas para o líder do campeonato. A exemplo do Internacional, na época treinado por Paulo Roberto Falcão, o Cruzeiro jogou recuado, atrás da linha do meio de campo, cozinhando o adversário em seu próprio jogo para recuperar a bola e vencer nos contra-ataques.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2011 | 00h00

Na famosa prancheta do treinador cruzeirense havia marcação específica, individual, e uma equipe taticamente brilhante. O gol de Wallyson, aos 8 minutos do segundo tempo, transformou a estratégia numa obra de arte, da mesma forma que a derrota colocaria o chefe na galeria dos inventores do País.

O Cruzeiro foi sistematizado num 4-4-1-1, com Montillo entre o meio de campo e um único atacante. O detalhe, porém, estava na marcação das duas linhas propostas pelos mineiros. A primeira delas cuidou de Welder e Ramon, os laterais corintianos, e de Paulinho e Danilo. E a segunda amarrou Émerson, William e Jorge Henrique.

O curioso é que os laterais Vitor e Gilberto atuaram no meio de campo, enquanto o volante Fabrício jogou como um lateral-direito, num vitorioso embate com Jorge Henrique. Reclamar da postura do Cruzeiro é a pior saída. A resposta é como superá-la. O Corinthians chutou cinco bolas no alvo, mas a primeira delas aconteceu apenas aos 37 minutos do segundo tempo, quando Gilberto já havia sido expulso.

Méritos para o Cruzeiro e para Joel Santana, o "simplório", o "superado", mas desta vez o arquiteto de um ferrolho de luxo, que deu uma aula de marcação no Pacaembu. Por que ferrolho de luxo? Porque um time que tem o argentino Montillo jamais poderá ser considerado comum.

A derrota apresenta o Corinthians ao Brasileiro e suas dificuldades. Trata-se de um campeonato extremamente difícil. Ao contrário da maioria das ligas, hoje a competição nacional possui uma quantidade maior de equipes bem estruturadas.

O aplauso do torcedor corintiano ao final do confronto diz que o grupo está no caminho certo. O caminho da luta e da superação. Mas o domingo foi azul, foi de Papai Joel e de sua renovada prancheta. E de Montillo. Apesar da derrota, os empates de São Paulo e de Flamengo, assim como a derrota do Palmeiras, ajudaram a manter o Corinthians ainda folgado na ponta.

Vacilo. Luís Fabiano foi contratado para resolver o problema. Há muito tempo o São Paulo sente a falta de um jogador de área, que, além de ser o definidor das jogadas, deve servir também como um importante ponto de apoio para a bola trabalhada no meio de campo, sabendo o momento correto de retê-la e de passá-la. Em algumas partidas esse defeito é mais acentuado, chega a ser crítico, como no empate com o Atlético-GO.

Dagoberto, Lucas e Rivaldo se juntaram para tabelar muito longe do gol, longe da zona de finalização. Para penetrar na área com esse tipo de posicionamento, é necessário construir a tabela perfeita e superar não uma, mas duas linhas de marcação. Com um jogador na área, ou de área, abre-se uma nova perspectiva, um caminho para o gol, uma referência para o passe.

Com o time melhor posicionado pelas laterais na segunda etapa, Rivaldo cumpriu parte desse papel ao aproveitar uma bola perfeita levantada por Dagoberto. Enfim houve uma infiltração, um passe no sentido do gol. E um jogador na área. Contra adversários fechados e organizados, esse antigo defeito são-paulino torna-se grave.

Trabalho para Adílson Batista, o novo treinador que viu uma defesa ingênua, parte de um time que acreditou na vitória fácil diante de um candidato ao rebaixamento. O Campeonato Brasileiro pode ser cruel com os ingênuos.

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