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Antero Greco
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O Fígaro verde

Não entendo nada de ópera - como de tantas outras coisas, aliás -, mas ontem bastou ler o noticiário do Palmeiras, logo pela manhã, que me pus a cantar um trecho do Barbeiro de Sevilha: "Fígaro qua, Fígaro la, Fígaro su, Fígaro giu. Tutti mi chiedono, tutti mi vogliono. Fígaro qua, Fígaro là. La, la, la, la, ra, là. Fígaro, Fígaro, Fígaro, Fígaro. Uno alla volta, uno alla volta, per carità, per carità, peeeer carità!"

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2015 | 02h02

Claro que atropelei a obra-prima de Giocchino Rossini, e me encolhi de vez ao correr pro YouTube e conferir o trecho na voz de Luciano Pavarotti, de Leo Nucci e seus gogós abençoados. Não sei cantar nem sambinha, quanto mais uma ária. Mas importa que essa música tem tudo a ver com o Palmeiras de hoje.

Pode reparar: estamos na metade do primeiro mês de 2015 e só se fala de Palmeiras. É Palmeiras que contratou Zé pra cá, é Palmeiras que vai trazer Mané pra lá. É Palmeiras que deu chapéu em rival ali, é Palmeiras que monta Comissão Técnica aqui. Jogador que antes esnobava o Palmeiras agora o procura, empresário que virava as costas para o Palmeiras está louquinho pra fazer negócio. Tantas propostas que a cartolagem alviverde parece dizer: "Um por vez, um por vez, por favor, por caridade".. la, la, la, rá, la...

Fato que a diretoria botou a mão no bolso, pisou no acelerador e saiu às compras com apetite. Até o momento em que batucava a crônica a lista de gente nova no Palestra contava com 14 nomes confirmados e um quase certo. Provavelmente a conta já esteja desatualizada neste momento.

Bom sinal, sem dúvida. Mau indício, também. Uma mistura, portanto, de constatações. Depois dos vexames de 2014, o ano do centenário do clube, Paulo Nobre e turma resolveram promover reviravolta no elenco. O time era catadão e não caiu, na rodada final do Brasileiro, graças à ajuda dos santos. Um Santos, pra ser exato. Depois do rapa, veio a série de investimentos.

Muito bacana, e era a saída que restava. A torcida não iria aguentar a nova temporada com um punhado de jogadores limitados a vestir-se de verde. Ao mesmo tempo, com a montanha de compras destes dias os dirigentes passaram recibo da incompetência e da falta de critérios do ano anterior.

Não custa lembrar que, então, desembarcaram no Palestra Itália quase três dezenas de jogadores. É muito, exagero. Nos tempos que correm, não se forma grupo de categoria com tanta gente. Isso ocorria lá pelos anos 60, 70, quando o interior era fonte inesgotável de talentos a preços convidativos. Bastavam uns cruzeiros para pescar craques como Baldochi, Luiz Pereira, Leão e outros de idêntico calibre. Os que não vingavam não davam prejuízo.

Por enquanto, parece - e uso o verbo com cautela - que houve mais preocupação com a qualidade em relação a 2014. Vários dos recém-contratados chegam para sustentar a condição de titulares. Menos mal. Mesmo assim, o pacote é muito recheado. Difícil, pra não cravar impossível, que se firmem todos. Não tem como, já que diversos integrantes da tropa de antes continuam e serão escalados por Osvaldo de Oliveira. Se, lá pra junho ou julho, a metade que chegou der retorno, estará de bom tamanho.

O palestrino teve o ego afagado, sobretudo com a contratação de Dudu, na atropelada sobre São Paulo e Corinthians. O moço joga direitinho, porém não se deve vê-lo como um fora de série. Expectativa exagerada pode levar a cobrança acima do razoável. O mesmo vale para o restante dos novatos - e, por novato, incluo até o veteraníssimo Zé Roberto. Este será importante em campo e como referência para os jovens, como exemplo de longevidade.

O Palmeiras modelo 2015 concederá uma provinha do potencial amanhã à tarde, no amistoso contra o time chinês do Shandong Luneng. Não se deve imaginar recital; seria falta de bom senso. Vale como boas-vindas ao grupo. Tomara que, com o tempo, o Palmeiras seja como o Fígaro da opera, querido, admirado e requisitado por todos. La, la, la, rá.

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