'O futebol brasileiro não encontrou nova identidade'

Conhecido como o "intelectual do futebol" e eleito como o melhor técnico do mundo na década 2000-2010 pela IFFHS (Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol), o francês Arsène Wenger não hesita: o aspecto comercial no futebol brasileiro estaria matando a qualidade da seleção nacional. Para o treinador do Arsenal, a saída prematura de jogadores do País foi gradualmente minando o futebol brasileiro. Wenger, em entrevista ao Estado, concedida na sede da Uefa, em Nyon, defende a manutenção de Mano Menezes no comando da seleção brasileira até o Mundial de 2014.

Entrevista com

JAMIL CHADE / NYON, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h05

Como o senhor vê as críticas ao treinador Mano Menezes na seleção brasileira?

Ele pelo menos tem um projeto, o que já é grande coisa. Ele parece saber o que está fazendo e acredito que o Brasil deveria mantê-lo no cargo até 2014. A diferença entre o Brasil e a Europa é que, no Brasil, treinadores vivem em hotéis. Na Europa, moram em casas. Treinadores precisam ter tempo para trabalhar.

Mas isso será suficiente para disputar a título na Copa?

É verdade que a equipe precisa ganhar em maturidade e os últimos jogos provaram isso, como no caso do torneio olímpico. É verdade que o grupo é muito jovem. Mas em dois anos os jogadores podem estar no auge de suas formas. A questão é garantir continuidade no trabalho.

Mas como pedir paciência se a Copa ocorre em menos de dois anos no Brasil?

Claro que é sempre complicado pedir paciência aos torcedores. Mas é isso que eles precisam ter agora. Talento não falta no Brasil e eu mesmo sempre tive muita sorte sempre que trouxemos um jogador brasileiro para atuar no Arsenal. Sou um grande admirador do futebol brasileiro. O futebol brasileiro parece ter perdido um pouco de suas características de futebol arte e, ao mesmo tempo, não encontrou uma nova identidade.

Qual é o motivo dessa crise no futebol do País?

A transferência de jogadores cada vez mais jovens para a Europa é o que está destruindo o futebol brasileiro. Tudo indica que a parte comercial do futebol ganhou uma força sem precedentes e que acabou destruindo a educação de jovens jogadores. O que vemos é que há uma transferência de jogadores nacionais cada vez mais jovens para a Europa. Eu conversava com Carlos Alberto Parreira há pouco tempo e ele me confessava que sequer conhecia alguns dos brasileiros que estavam despontando nas equipes na Europa. Ficou claro que não há um controle.

Como o senhor vê então o

futuro desse futebol?

Acho que isso vai começar a mudar. Com uma economia cada vez mais forte, o Brasil pode reverter a situação e manter jogadores de talento no País. Isso pode mudar muita coisa.

O dinheiro ainda conquista campeonatos?

Certamente ajuda. Mas jogos são vencidos em campo e eu ainda aposto no futebol puro, de resultados em campo.

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