O futebol é a vítima

Lúcia Helena Vieira é a mãe do torcedor do Palmeiras, Roberto Vieira de Castro Júnior, baleado momentos antes do clássico com o Corinthians, duas semanas atrás, em Presidente Prudente. O risco de morte já não existe. Lúcia e todas as testemunhas próximas ao tiroteio garantem: "Quem atirou foi a polícia", diz a mãe. Ela gostaria que seu filho nunca mais voltasse a um estádio, mas pondera: "Poderia ter acontecido na rua ou num supermercado. Quem atirou foi quem deveria proteger."

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

Em Presidente Prudente, o delegado Sérgio Luiz Toffanelli, da Polícia Civil, conduz inquérito interno para saber se o disparo partiu de um policial. Ainda se esquiva. Não confirma a origem do tiro, mas apreendeu as armas dos soldados próximos à confusão. O inquérito nasceu, porque a Polícia sabe que é concreta a chance de uma de suas armas ter disparado.

Sérgio Luiz confirma o que dizem os torcedores. Que a confusão começou quando policiais tentavam separar as filas de palmeirenses e corintianos - estavam muito próximas por falha da organização. Não há data para terminar o inquérito. O delegado pede que novas informações sejam solicitadas daqui a dois meses. É provável que mesmo nessa data as conclusões sejam rasas e os culpados escondidos.

Não se deve tratar nenhum torcedor uniformizado como inocente. São culpados boa parte das vezes. Quando é assim, devem ser julgados, condenados e presos. Mas esta reflexão é sobre a parcela de responsabilidade da Polícia - e também da Justiça - nos casos de violência entre torcidas.

Por enquanto, o episódio de Presidente Prudente só serviu para colocar na clandestinidade a Mancha Alviverde, decisão demagógica, como bem sabem as autoridades.

No início da tarde de quarta-feira, a Mancha viajou de ônibus para Curitiba, para assistir a Atlético-PR x Palmeiras. na Arena da Baixada. À paisana, a facção também estará no Pacaembu, hoje à tarde, em Palmeiras x Internacional.

A culpa da Polícia. A decisão demagógica de "extinguir" a Mancha foi respaldada pela PM, mas tomada pela Federação Paulista de Futebol. Há quem jure que Marco Pólo Del Nero não quis punir a facção pelos atos de violência de Presidente Prudente.

Esse foi o pretexto. A exclusão teria se dado para punir o mais organizado painel da campanha "Fora Teixeira!", montado no Prudentão. A Polícia Militar e a Justiça têm responsabilidades mais sérias.

No dia 20 de agosto, o diário Lance! publicou a informação de que as torcidas Independente, do São Paulo, e Mancha Alviverde, do Palmeiras, entregaram à PM o mapa com seus trajetos até o estádio. Ao mapear a cidade, indicaram também os principais pontos de conflito. Apontavam o Terminal Cachoeirinha e a avenida Inajar de Souza, na zona norte, como os lugares a vigiar.

Na noite de 27 de agosto, véspera de Palmeiras x Corinthians, a 700 km da capital, corintianos e palmeirenses se encontraram na continuação da avenida Inajar de Souza. Cerca de 150 torcedores de cada lado.

Naquela semana, a família do corintiano Douglas Karim Silva descobriu, pela internet, que ele havia participado de uma briga de torcidas.

Douglas tinha 27 anos. Foi encontrado morto dentro do rio Tietê.

As testemunhas dizem que essas rixas - assim como as travadas entre punks e skinheads que fizeram uma morte no fim de semana passado - são agendadas por rádio e anunciadas na internet. Todo mundo sabe. A polícia, não.

Se não cabe aos policiais vigiar brigões, cabe prender os assassinos.

À Justiça, cabe condená-los.

Há décadas, assassinos se escondem atrás do discurso de que torcedores não devem ir aos estádios, que o futebol é perigoso, não é ambiente para famílias.

E então a briga se dá a 700 km do estádio, num lugar mapeado por torcedores, anunciado com uma semana de antecedência.

Se você já não pode ir ao estádio, será que pode andar tranquilo numa rua da zona norte de São Paulo? Assassinos são assassinos. Não importa se os suspeitos carregam no peito o escudo de seu clube ou da Polícia Militar.

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