O futebol na era da 'troca de pátrias'

Dupla nacionalidade e naturalizações são recursos cada vez mais utilizados por atletas para jogar por seleções

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

O mundo está globalizado e o futebol não poderia ser diferente. Um dos reflexos dessa universalização é a "troca de pátrias"" por parte dos jogadores. Eles não apenas vão trabalhar em outro país como acabam por servir a seleção nacional. O fenômeno é antigo no futebol, mas disseminou-se nos últimos anos. Isso poderá ser visto na Copa da África do Sul. Até a Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo, é aberta a "estrangeiros"" quando o assunto é a bola.

No dia 15 de junho, quando entrar em campo para enfrentar o Brasil, a Coreia do Norte muito provavelmente terá no time dois jogadores nascidos no Japão: An Yong-Hak e o craque da equipe, Jong Tae-Se, natural de Nagoya e hoje morador de Kawasaki.

Os norte-coreanos são apenas dois dos pelo menos 75 jogadores naturalizados ou com dupla cidadania com chances de aparecer no Mundial. Entre eles estão os brasileiros Deco, Liedson e Pepe (Portugal) e Marcos Senna (Espanha). Cacau é "zebra"", mas pode aparecer na seleção alemã.

O Estado chegou a esse número com base nas convocações feitas pelas 32 seleções desde janeiro de 2009 ? 22 delas podem ter "estrangeiros"". Como no total o Mundial terá 736 jogadores, os 75 representariam pouco mais de 10% deles.

Vai ser preciso, claro, esperar que todas as seleções divulguem seus eleitos para saber o número exato de naturalizados ou cidadãos com dupla nacionalidade que desfilarão por gramados africanos. Já é possível constatar, porém, que tal fenômeno vem crescendo. Na Copa do Japão e da Coreia do Sul, em 2002, 34 atletas estiveram nessa situação. Quatro anos depois, na Alemanha, foram 67 ? praticamente o dobro. Em 2006, apenas oito das 32 seleções foram compostas somente por jogadores nascidos no país.

Preocupação. Esse crescimento incomoda a Fifa, a ponto de o presidente Joseph Blatter estar em campanha para endurecer os critérios que permitam tirar proveito da dupla cidadania ou da onda de naturalizações.

O alvo principal do dirigente são os atletas nascidos na América do Sul. "Há um excesso de jogadores sul-americanos que obtêm passaporte europeu com facilidade e isso pode resultar em uma Copa de 2014 disputada na maioria por jogadores do Brasil e da Argentina"", exagerou em novembro passado, ao ser questionado sobre o tema. "Por esta razão devemos agir.""

Sua intenção é tornar mais dura a regra que exige um período de cinco anos para que um jogador possa representar uma federação diferente da de seu país, e que muita vezes é burlada por meio de artifícios simples ? como o casamento, que em diversos países é garantia automática de dupla cidadania.

Motivos. Mas não é apenas a oportunidade de disputar uma Copa, ou o bom dinheiro que entra na conta bancária, que leva um jogador a trocar seu país de origem por outro. Os motivos são os mais variados.

A Argélia tem pelo menos 12 jogadores nascidos em território francês. Explicação: seus pais fugiram para lá por causa do terrorismo e dos conflitos armados durante e depois da guerra pela independência ? a Argélia era colônia da França até 1962? nos anos 60 e 70 do século passado.

O alemão Kuranyi (que não deve ir à Copa, pois brigou com o técnico Joachim Loew) nasceu no Rio porque seu pai era diplomata. Já Jong Tae-Se, o norte-coreano adversário do Brasil, é do Japão porque seus avós para lá foram décadas atrás. Tinha direito a ser cidadão da Coreia do Norte e exerceu.

Em muitos casos o país de origem do jogador foi colônia daquele que ele defende. Mas há situações bem variadas. A Suíça tem entre os convocáveis um sérvio, um colombiano, um congolês e um cabo-verdense. E a Nigéria conta com Odemwingle, que veio ao mundo em Tashent, no Usbequistão.

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