O futebol possível

Derrotados no sábado, Fluminense e Corinthians são a prova de um campeonato aberto a novos líderes. Perderam jogos improváveis e mostraram que, mais uma vez, buscar respostas no início do segundo turno pode ser perda de tempo. Melhor assim. Na 21.ª rodada do ano passado, como agora, o Palmeiras liderava enquanto o Flamengo, o futuro campeão, ocupava o modesto 10.º lugar, 11 pontos atrás. Se existe um certo nivelamento, ele não se dá por baixo, é resultado do futebol possível.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Futebol possível que tem empurrado o Botafogo para o topo da tabela. "Papai" Joel Santana não possui um grupo extremamente técnico para desenhar na sua famosa prancheta, mas vive momento especial na competição. O ponto forte é a confiança, combustível para marcar a saída de bola do São Paulo aos 47 minutos do 2.º tempo, mesmo com um certo conforto no placar. Com esse espírito, nas últimas dez partidas, são oito vitórias, um empate e uma derrota.

É o que falta ao Palmeiras, abatido, sem perspectiva, mas com gente capaz de fazê-lo melhorar - não a ponto de erguer a taça, mas para se livrar dos fantasmas internos, mais assustadores do que os beques adversários. Ontem, contra o Vasco, o que se poderia esperar dos times que mais empataram no Brasileiro? A diferença é que PC Gusmão, há 13 jogos com os cariocas, não perde, abocanhou 59% dos pontos disputados. Já Felipão, também em 13 confrontos, está na casa dos 36%.

Como sempre, os dirigentes acreditam que suas equipes vão melhorar com a troca de treinadores. Aqui, sim, há uma boa dose de lógica. O gestor, aquele sujeito que decide o momento de limar o "professor" do banco e que desaparece quando as dívidas explodem o orçamento, jamais é identificado como o responsável pelas escolhas ruins.

Fico imaginando o que se passa na cabeça de um cartola desses. Amam seus clubes, não sabem nada de futebol, mas acreditam que há uma revolução logo ali na esquina. Por enquanto, o placar das trocas mostra apenas cinco dos 20 clubes com seus treinadores originais: Fluminense, Santos, Botafogo, Guarani e Atlético Mineiro. E olha que no Galo não faltam motivos para se livrar de Luxemburgo.

Não há garantia de que o resultado acompanhará o sentido das trocas. Às vezes funciona. Pelo menos vem dando certo no Atlético Goianiense. Em nove partidas, René Simões e sua boa conversa, elaborada demais para o trivial do futebolês, conseguiram melhorar o time a ponto de bater o Fluminense, que vem caindo de rendimento. Muricy Ramalho já viu esse filme.

Nas últimas três semanas, desde o início da etapa com dois compromissos semanais, o Flu vem perdendo pontos. Traduzindo: em sete rodadas, um terço do campeonato, o aproveitamento do líder é de apenas 43%. A má fase coincide com a mudança de sistema de jogo para a entrada de Deco, com a contusão de Émerson...

Qual é a lógica? Voltemos a Felipão, ele foi campeão do mundo pela seleção brasileira e René Simões levou a Jamaica à Copa de 1998. O significado disso? Dois momentos brilhantes do futebol em dimensões diferentes. A vantagem do campeão mundial é que hoje ele é um treinador de projetos, algo que meu amigo Antero Greco tanto admira aqui nas páginas do Estadão.

René, por sua vez, tem sido tratado injustamente como o bombeiro das causas perdidas. Nos últimos tempos é só convite para roubada, até o Fluminense ele já salvou do buraco, em 2008. E continua aceitando essas missões. Por falar em projeto, em suas nove partidas pelo Atlético-GO, possui rendimento superior às de Scolari no Palmeiras: 44,5% x 36%.

Isso mesmo, o Atlético-GO de René é melhor que o Palmeiras de Felipão. Qual é a lógica?

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